Transmutalisme
  ignius
 

Le Livre "IGNIUS - Le Secret de la Transmutation" de Emmanuel de Cériz

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Emmanuel  de  Céríz

 IGNIUS

O Segredo da Transmutação

 

  

 

 

 (Síntese Vol.I)

 A Aventura Quântica e o Transmutalismo

 


 

 

Dedico este livro a Rafael e à humanidade

 

 

     Toda a Mentalidade e Pensamento Quotidiano assentam sobre axiomas.

      Os axiomas são tomados como as verdades básicas ou fundamentais a partir das quais toda a estrutura do pensamento é construída.

      Essa estrutura de pensamento determina a forma como interpretamos a Realidade e o modo como lidamos com a mesma.

     

      Porém, os axiomas são apenas proposições aceites como verdades apesar de não poderem ser demonstrados como tal.

      Um dos axiomas básicos é o Princípio da Identidade que diz:

      “Uma coisa é igual a si própria, ou A = A”.

 

      Eu suponho que este axioma (como outros) está incompleto, o que originou toda uma matemática e lógica incompletas e um resultante sistema de pensamento deficiente.

      Como consequência ficamos privados da possibilidade de domar a Realidade por não possuirmos uma instrumantação mental completa.

     

      Assim, para completar o Princípio da Identidade, e apesar de aparentemente ilógico, enunciei o Axioma 1 do Transmutalismo como:

      “Uma coisa é igual e diferente de si própria, ou A = A  Ù  A ≠ A”.

 

      Dste axioma resulta o Conceito Transmutalista de que qualquer entidade é, afinal, uma Nuvem de Possibilidades:

 

      Uma entidade é o núcleo denso de uma nuvem de possibilidades que engloba em si todas as entidades alternativas, isto é,  tudo aquilo que essa entidade não é!

 

      Este é o mecanismo que permitirá a Transmorfose do ser.

 

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         Enquanto se dirigiam para o Instituto de Estudos Quânticos, Íris contemplou Atlan, ali ao seu lado, e recordou-se das estranhas circunstâncias em que o conhecera.

 

         Fora em Montserrat, nas Filipinas, durante a violenta erupção daquele feroz vulcão…

 

         Como mais tarde veio a saber, Atlan aventurava-se frequentemente em locais muito além dos seguros. E fora ali que o vira pela primeira vez mesmo na margem do rio de lava fervente que o começara a cercar…

                    

         “Ele não apercebeu que eu, da outra margem, o observava... tão secretamente, quanto fascinada!”, reflectiu Íris.

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Ø

TRANSMORPHOSYS

 

E, quase sem ter dado por isso, ali se encontrava Atlan

naquela terrível situação:  agachado na margem,

enfrente ao rio de lama fervente.

 

Estava muito calor e a lava principiava a rodeá-lo.

 

Precisava urgentemente de atravessar para a outra margem.

Ele possuía dois braços e duas pernas –

– nada que lhe fosse útil naquela situação!

Precisaria de voar sobre a lava,

para lá chegar.

O calor era insuportável.

O magma ardente incendiava as ervas próximas.

Ele saltou para cima do pequeno rochedo.

Mesmo a tempo, porque agora, a lava rodeava-o.

Ameaçava engolir tudo.

E ele estava ali, aprisionado naquele corpo.

No seu corpo.

Sem poder alcançar a outra margem.

 

A pele ardia-lhe.

Anichou-se na pequena rocha.

A lava subia.

O ar quente queimava-lhe as narinas e os pulmões.

Se pudesse libertar-se dali...

deixaria tudo, até o seu próprio corpo!

 

Era o fim.

Porque o magma já rasava os seus pés.

E ele estava ali, no seu último reduto.

Se pudesse desfazer os limites do seu corpo...

...voava dali!

 

Aninhou-se mais ainda, desesperado.

Iria ser engolido...

 

...Iria ser engolido...

 

“Pois então que fosse!...”,

pensou ele, já subitamente Indiferente*.

E foi quando tudo aconteceu!

 

Eu não sei explicar:

algo nele rasgou limites,

estourou com a rigidez da sua forma.

Ele tornou-se em nada,

ou em tudo.

 

E o que vi foi ele diluir-se,

tornar-se uma mancha de mata-borrão

e voar por cima da lava ardente.

 

(Se é que se poderia chamar àquilo

“voar”!...)

                                   Íris.

 

 

 

 

 

 

A vida é o conjunto das

forças que resistem à morte.

               

                         Xavier Bichat

 

                               

     Quando interrompemos o fluxo da descrição da nossa  própria pessoa, libertamo-nos do encantamento do ego que quer fazer-nos acreditar que representa a única realidade. Nesse momento podemos reconhecer a nossa verdadeira natureza  de campos de energia, livre e fluida. A partir de então,  podemos assumir a tarefa de nos reinventarmos de um modo intencional e voluntário, capaz de responder de novas maneiras a novas situações surgidas a qualquer instante.

“Os ensinamentos de Carlos Castañeda”, Victor Sanchez

 

 

 

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         “Será que foi uma alucinação?”, pensou Íris ainda muito pouco segura do que acabara de observar, “Eu vi mesmo aquilo?!?”. Mas não conseguia impedir-se de ir avançando em direcção ao monte de arbustos por trás dos quais caíra aquele ser que supostamente se diluira e esvoaçara por cima do rio de lava fervente. Tinha de se certificar do que vira.

         De súbito pensou “Será perigoso?”, e prosseguiu a sua aproximação mas de forma mais cautelosa para não perturbar o que quer que ali estivesse. “Ver sem ser vista”, sim, isso seria o mais prudente. Sentia cada vez mais receio do que tudo aquilo pudesse significar. Mas a curiosidade era mais forte…

         E então viu-o. Através da folhagem apercebeu-se que era o mesmo homem jovem que estivera, ainda há momentos, encurralado do outro lado do rio de fogo provocado pela erupção do vulcão. Ele ainda não se apercebera da presença dela e ela esquadrinhava-o de alto a baixo procurando descobrir-lhe qualquer característica invulgar que justificasse o insólito fenómeno que presenciara. Era um rapaz alto, de longos cabelos loiros e vestia-se de uma forma que continha um toque pouco comum… como se tivesse um-não-sei-o-quê de época medieval, de cavaleiro, ou algo assim. Ele encontrava-se soerguido e de perfil para Íris, como procurando recompor-se de qualquer coisa. “Talvez da experiência por que passara”, pensou Íris.

         Foi quando ele virou repentinamente a cabeça na sua direcção e, através da folhagem, os seus olhos se cruzaram.

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         Aqueles olhos vibrantes fitavam-no com uma intensidade quase feroz, pensou Atlan quando se apercebeu daquilo que inicialmente lhe pareceram ser duas brasas que cintilavam através da folhagem. Fora a sensação de estar a ser observado e analisado que o fizera voltar-se naquela direcção. E ali estava alguém por trás daquela moita que não tirava os olhos de si. Deveria ser uma mulher porque lhe vislumbrava, por entre a folhagem, aquilo que pareciam ser uns longos cabelos cor-de-fogo.

         Ficaram assim imóveis, observando-se, medindo-se, algo receosos, algo desconfiados durante o que parecia estar a tornar-se uma eternidade.

         O que estariam a sentir? Ainda não se conheciam… mas parecia um daqueles momentos ainda mais mágicos do que a “magia” que tinham acabado de passar e presenciar. Talvez ainda não o soubessem definir mas era como se sentissem que algo no íntimo deles se estava a retorcer e ao mesmo tempo a tocar-se por fim, após uma longa espera.

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         Quando Íris saiu da folhagem e os dois se viram frente a frente sentiu que ele estava tão estupefacto quanto ela com tudo aquilo. Pareceu-lhe que ele não tinha a certeza de que ela o tivesse ou não observado. De qualquer modo não havia tempo para conversar. Ele ofereceu-se para a conduzir sem demora a um porto seguro, e ela aceitou. Urgia abandonar a ilha.

         Só muito mais tarde, perante a insistência de Íris, Atlan lhe falou sobre o que quer que pudesse ter ocorrido com ele próprio, ali, durante a violenta erupção do vulcão.

         Ele introduziu a mão na sua pequena mochila e retirou de lá um livro espesso.

         – Esta é uma edição do “Livro dos Mortos” do Antigo Egipto. Talvez o livro mais antigo da humanidade – explicou. Possivelmente escrito há cerca de 7.000 anos!... Mas uma tradução mais exacta do seu título seria “Livro da Saída para a Luz de o Dia”. Quanto a mim, prefiro chamá-lo de “Livro das Transmorfoses”...

         – “Transmorfoses”? – interrompeu Íris.

         – Sim, é como designo as mutações temporárias da forma de um ser. Este livro leva a crer que esse era um tema da maior importância para os antigos egípcios. Repara, por exemplo, neste capítulo...

         Abriu o livro numa página seleccionada e leu:

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Capítulo LXXXVI

Para ser transformado em Andorinha

 

Eu sou uma andorinha, uma andorinha…

Eu sou também a deusa Escorpião, filha de Rá…

Oh! deuses quão doce e agradável me é vosso perfume que arde e sobe para o horizonte!

Vós que habitais a Cidade Celeste!

Estendei-me vossas mãos protectoras para que eu possa, sem perigo, residir no Lago de Fogo!...

Pronuncio as palavras de Poder, digo: “Olhai bem, Eu sou Horus, eu me apodero da Barca Celeste e torno a pôr em seu trono Osíris, meu Pai.

 

do ‘Livro das TransMorfoses’

...também chamado ‘Livro da Saída para a Luz de o Dia’

...conhecido como ‘Livro dos Mortos do Antigo Egipto’

 

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         Mais tarde, Atlan explicou a Íris que uma das alavancas que lhe permitiu escapar com vida daquela aflitiva situação em que se encontrara, rodeado pela lava fervente, fora um invulgar *estado de indiferença que dele se apoderara quando esgotara todas as outras possibilidades de fuga...

         Mas Íris queria saber mais, muito mais. Subitamente sentia-se acometida por uma incontrolável curiosidade em conhecer Atlan e tudo o que o levara até ali, até àquela estranha façanha. Queria saber as suas motivações e os seus objectivos profundos porque principiava a pressentir que eles se relacionavam de algum modo com os seus próprios.

         Atlan confidenciou-lhe então que a “transmutação” representava o sonho e o trabalho de toda uma vida, de toda a sua vida...

         Íris pediu-lhe para a esclarecer melhor sobre o que é que ele queria dizer com essa “transmutação”.

         – Desde a minha mais remota infância que sinto haver em nós uma  enorme verdade escondida – respondeu – uma verdade capaz de transformar tudo. Capaz de transformar completamente a nossa relação com o que nos rodeia e... até de nos transformar a nós próprios!

         – Capaz de nos transformar a nós próprios?

         – Sim, capaz de nos transformar a nós, meros seres humanos, em seres semelhantes a deuses!... – disse ele enquanto estendia os braços... muito abertos!

         E Íris ficou ali, abismada com tão estranha revelação a olhar para aquele jovem homem e a pensar que ele dedicara toda a sua vida a perseguir um sonho tão inédito quanto aparentemente impossível: o de se transmutar!

         Enquanto contemplava o seu olhar profundo parecia-lhe estar a viver uma espécie de sonho acordada. Ela própria vinha investigando o tema da transmutação há vários anos, embora de uma perspectiva mais impessoal, mais teórica, mais relacionada com a transmutação física dos elementos... e, mesmo assim, muitas vezes se interrogava se não estaria a perseguir uma quimera e a perder o seu tempo numa pesquisa impossível. Porém, pela primeira vez na sua vida, tinha acabado de encontrar alguém que parecia acreditar ainda mais naquilo do que ela.

         Quis saber o que ele tinha já descoberto, até onde tinha ele chegado, quais tinham sido os seus passos.

         Atlan começou então a contar-lhe que a sua longa investigação se iniciara há muito tempo atrás, ainda na sua infância, com uma coisa a que ele gostava de chamar “a teoria do puzzle”...

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A Teoria do Puzzle...

 

Atlan sempre fora uma criança muito diferente das outras. Possuía uma forma tão invulgar, tão clara e tão estranhamente pura de ver as coisas que parecia deixar adivinhar em si uma qualquer natureza alienígena... como se viesse, não daqui, da Terra, mas de um outro mundo distante.

A sua vida sempre fora pautada por retumbantes brilhantismos nas áreas mais diversas, assim como por desencantos e totais períodos de desinteresse.

Nasceu morto, vítima de um parto difícil e para além da época.

Quando, finalmente, abriu os olhos para o mundo, achou que ele deveria ter mais cor, mais beleza, mais amor e, sobretudo... deveria ser mais delicado. Foi essa falta de delicadeza e sensibilidade com que deparou que o levou a esbarrar, várias vezes, com os que o rodeavam. Sentia-se como uma lisa placa de cristal, coberta apenas por uma fina camada de cera, que aterrava numa terra de arestas pontiagudas e escarpadas que feriam a sua sensível superfície... rasgando nela rudes e violentos sulcos.

O mundo que percepcionava labutava já, frenética e atarefadamente, numa algazarra de agressividade e truques de competição que, aos olhos do pequeno Atlan, era egocêntrica e grotesca.

No entanto, havia muitas outras coisas, no mundo, que o fascinavam e a sua maior paixão era descobrir, descortinar “o que era tudo isto” no qual se encontrava inserido.

Foi assim que, aos seis anos, quase dois antes da sua entrada para a escola, esboçou a sua primeira teoria: a “teoria do puzzle”...

...havia no mundo, na vida, na existência em geral, uma grande quantidade e diversidade de “peças” soltas (como num “puzzle” ou “quebra-cabeças”) — ainda que fosse, de facto, uma quantidade bem pequena quando comparada com a imensidão da “imagem” total, constituída por todas as “peças” da existência.

Num típico jogo de puzzle, reconstituir a imagem global era uma tarefa simples: bastava, para isso, procurar e encaixar as peças em falta.

Mas o mesmo não se passava com a “Imagem” do mundo, com a “imagem” da Vida e da Existência: havia muitas peças que faltavam e que não era possível encontrar — porque não estavam ainda disponíveis pelo conhecimento humano.

Eram questões fundamentais cujas respostas ninguém parecia conhecer. E como encontraria ele essas “peças”?... essas “peças” da “imagem” global da existência — do “o que é a existência?” — que o pequeno Atlan procurava reconstruir, como se de um puzzle gigantesco se tratasse...

Sim. E como?... Como descobrir, por si próprio, aquilo que a ciência ignorava ainda?

Seria possível?

 

A ideia reveladora surgiu-lhe como que por mero acaso.

Foi durante uma desses longos momentos que ocorriam quando sua mãe encontrava uma amiga na rua e conversava sobre coisas que nada diziam a Atlan. Ainda por cima, ele ficava ali preso, pela mão da mãe, sem poder saltar e brincar nas suas loucas cavalgadas imaginárias.

O seu espírito irrequieto  era por demais activo para ficar parado, imóvel, por tanto tempo. E, já que o seu corpo não podia mover-se, restava-lhe mover o seu espírito.

Foi assim que começou a entreter-se, ao olhar para o molho de chaves que sua mãe agitava enquanto conversava:

“Como será uma fechadura por dentro?”

“Qual será o tipo de mecanismo que permite, às chaves, abrir e cerrar as fechaduras das portas?”, foram os seus primeiros pensamentos.

Talvez que se Atlan tivesse, naquele momento, os movimentos livres, se aventurasse a desmanchar uma fechadura e a ver qual seria o seu mecanismo interior.

Mas encontrava-se restrito à prisão da imobilidade... e restava-lhe apenas o seu pensamento para descobri-lo.

O que o terá levado a enveredar por “caminhos” menos experimentalistas...

...Sentiu a sedução do processo de descoberta realizada sem ver o interior do objecto que pretendia conhecer...

“Era muito interessante”, pensou, “e era um óptimo entretenimento para se distrair durante as horas de interminável “seca”.

A fechadura, que era tapada, oculta — e que nem sequer estava ali presente — era como um espécie de “caixa negra” para Atlan, que desejava “adivinhar-lhe”, ou “deduzir-lhe” o seu conteúdo.

Restava-lhe, assim, tentar descobrir como seria o mecanismo no interior dessa “caixa negra” através, apenas, das suas relações com o meio, isto é, através das interacções da “caixa” com a chave.

Começou por olhar atentamente para a forma das chaves e para todas as suas ranhuras...

 

E foi assim que esboçou toda uma série de processos mentais baseados no que, ele não sabia ainda, se designaria por indução, lógica, dedução, intuição, extrapolação...

Atlan ficou fascinado com a sua “teoria da caixa negra” porque se apercebeu, imediatamente, que ela o poderia ajudar imenso... A descobrir quais e como eram essas “peças” em falta: essas “peças” ainda desconhecidas pelo homem. Esses “fragmentos de imagem” do seu enorme “brinquedo”: o imenso “puzzle” da “imagem” do universo.

Portanto, as suas teorias da “caixa negra” e do “puzzle” completavam-se!...

 

Curiosamente, poucos anos mais tarde, um grupo de cientistas norte-americanos viria a elaborar uma teoria cibernética muito semelhante à sua: à qual chamaram — também por curiosa coincidência — “the black box theory”, a teoria da caixa negra. Que constituiu um dos marcos mais significativos da ciência: através de diversas operações mentais e da análise das interacções de um objecto cujo interior é desconhecido (“black box”), algoritmizar o seu funcionalismo, para chegar a inferir, a descobrir, como é o seu mecanismo interior –  sempre sem o ver.

 

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         No regresso das Filipinas Íris contemplava pensativa as águas distantes do oceano azul-turquesa...

 

         Agora que ela conhecera uma parte importante da infância de Atlan adivinhava que viria a compreendê-lo e sentia que aquele manto de estranheza que o encobria, derivado da forma inédita como o conhecera, parecia estar a desvanecer-se e  a deixar transparecer um Atlan bem mais humano e com uma sede de respostas, afinal, um tanto semelhante à sua.

        

         Ela própria também nunca aceitara completamente esta nossa posição colectiva de simples e frágeis seres mortais sujeitos às forças da natureza, do tempo e da morte. No fundo, não sabia bem porquê, sempre tivera essa estranha intuição de que nós, humanos, possuímos “mais qualquer coisa” lá bem no nosso interior, enterrada ou perdida nas nossas profundezas; e que “essa tal coisa” nos poderia potenciar até ao ponto de nos transformar, isto é, de nos “transmutar” em seres capazes  de dominar o Tempo e o Espaço...

         ...Sim, de algum modo ela sempre pressentira que existia em nós, algures, a “essência adormecida dos deuses”... nos quais nos poderíamos a nós próprios transmutar!

         Talvez não passasse de um sonho louco...

         Mas agora ela conhecera Atlan... que parecia ter um sonho comparável ao seu!

 

         Olhou para trás no tempo e reviu algumas das suas pesquisas e apercebeu-se como elas estavam tão relacionadas com a grande busca de Atlan. Também ela procurava uma nova forma de lidar com a realidade, capaz de actuar sobre ela e de a alterar através da pura acção da nossa vontade e consciência.

           

         Recordou-se dos tempos passados no Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, o CERN, onde obtivera as suas primeiras experiências com aceleradores de partículas atómicas. Ali conseguiam já transmutar-se algumas porções ínfimas de matéria (até mesmo chumbo em ouro!) embora sem qualquer interesse económico ou prático devido às enormes e dispendiosas quantidades de energia necessárias ao processo...

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APONTAMENTO #1:

 

“/.../ Em ordem a compreender as leis destas transmutações e, se possível, tirar proveito do seu conhecimento, o Homem começou por estudar a radiação cósmica natural, fonte das partículas de alta energia originadas na nossa galáxia ou alhures e  construir depois aceleradores [de partículas] e pilhas atómicas. Todavia, as quantidades de material tratado pelos aceleradores de alta energia permanecem infinitesimais em relação, por exemplo, ao ciclo do dióxido de carbono. Um moderno sincrotrão precisaria de mais de dez mil anos para tratar um grama de material protónico!

 

            “Portanto, até agora apenas se tem podido recorrer à química mais simples para produzir moléculas à custa dos elementos tal como se nos apresentam, sem possibilidade de neles encontrar a energia que permitiria a transmutação directa do carbono em oxigénio, a não ser que um fenómeno, presentemente desconhecido e de toda a aparência improvável, tornasse possível a referida transmutação a baixa energia.”

Robert Gouiran, Particles and Accelerators

           

           

            Íris pensava que o seu “Princípio da Certeza” seria a alavanca fundamental para conseguir realizar a transmutação a baixa energia.  

Sem dúvida que muito admirava os fabulosos aceleradores de partículas. Eram admiráveis obras da Física Nuclear e muito tinham contribuído para a descoberta da constituição da matéria.

Mas não era esse, o tipo de abordagem transmutacional que procurava.

As partículas constituintes dos átomos mantêm-se coesas por poderosas forças — principalmente pela força electromagnética, pela força nuclear forte e pela força nuclear fraca. Para provocar um novo arranjo nessas partículas era necessário aplicar-lhes uma outra força que contrariasse essas forças de coesão. O que exigiria um dispêndio enorme de energia...

Não lhe parecia nada elegante, para os fins em vista.

Era o que se passava nos aceleradores de partículas: para se obter a transmutação de apenas pequenas quantidades de átomos de um dado elemento em átomos de outro elemento diferente, era utilizado o processo de os bombardear com partículas super-aceleradas a muito altas energias.

Este método duro, de bombardear umas partículas com outras, aceleradas por forças gigantescas, para perfurarem as suas barreiras de forças electromagnéticas e nucleares, resultava num consumo imenso de energia. Além de exigir meios tecnológicos muito sofisticados.

 

Deveria haver uma forma mais essencial, mais vinda de dentro, para o fazer.

Mexer no cerne da questão, na ‘raiz’ do problema, para lhe alterar os ‘ramos’. Em vez de os procurar ‘vergar’ à força.

E claro que, supunha Íris, a criação de algo como o que designava de  ‘MetaConsciência’ representaria, também, um factor vital na transmutação directa...

…era aí que a sua linha de pesquisa colidia com a de Atlan.

Mas Atlan queria, para além de tudo isso, e fundamentalmente, transmutar-se a ele próprio!...

 

  

FASE  I

 

NASCENTE

 

  

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              O mais insólito é que parecia a Íris haver mesmo algo de profundamente alienígena em Atlan. Ele parecia possuir estranhas memórias. Recordações mais ou menos fugazes de um qualquer “passado” distante vivido não sabia onde nem quando...

              Algumas dessas “lembranças” eram tão invulgares que parecia não se poderem enquadrar em qualquer época, mundo, ou situação em que nós, seres humanos, pudéssemos  alguma vez ter vivido. E, no entanto, ele confidenciou-lhe que por vezes as sentia tão suas e tão reais que era como se, por breves instantes, a sua mente interior descerrasse uma cortina para lá da qual se escondia uma outra realidade pessoal ainda mais ampla, ainda mais verdadeira e profunda do que aquela em que vivemos.

              Uma dessas aparentes “memórias”, talvez uma das mais remotas, era a de “um deus muito antigo”, algo que Atlan tentara descrever e sintetizar num pequeno texto que escrevera na sua adolescência...

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Um deus antigo

 

Ele era Ptah, o três vezes grande Ptah.

E caminhava para Ptah, capital do seu império de GoneWonLane...

 

 

Ele era um ser muito antigo.

Talvez um deus... de um universo há muito desaparecido ou perdido no tempo.

Não sei...

Talvez tenha sido poupado, tolerado ou respeitado por todos os deuses e universos que lhe sucederam.

...Até ao nosso Tempo.

 

Mas quis misturar-se com a espécie. Sentir Tudo.

Vislumbrar todos os parâmetros.

Ser um ser ínfimo e ser também o infinito.

Ser animal e ser humano.

Perfeito, mas também tropeçar.

Descobriu ser essa a sua plenitude do seu desejo: tudo ser.

...

Mas, para isso, pareceu-lhe ser necessário descer dos céus e morrer como deus que era...

Criou então um adversário ..

...e deixou-se despedaçar por ele. Fragmentou-se em vários pedaços dispersos.

E assim, de certo modo, morreu.

 

...E nasceu no seio da sua própria criação,

como apenas mais um ser por ele criado.

 

...

 

Agora iria empreender toda a longa marcha

que o levaria de novo ao seu ser.

 

E no fim,

teria realizado a grande síntese sinérgica:

Seria mais do que ele próprio havia alguma vez sido.

 


 

A aventura quântica começa na Grécia Antiga, há 2500 anos (pelo menos segundo a História conhecida)...

       É quando Demócrito considera que a matéria é um conjunto de minúsculas partículas, às quais chama ‘átomos’.

Clinamen’ é a noção do incessante e errático movimento destas partículas (“de uma desconexa turbulência!”) expressa mais tarde pelo poeta romano Lucrécio.

Empédocles , Epicuro e Pitágoras defendem a teoria da descontinuidade da matéria.

Mas a teoria oposta, a da continuidade, defendida por Heraclito e pelos Eleatas mantém-se dominante durante mais 23 séculos...

...até à descoberta do movimento browniano em 1827.

Mas é só com os trabalhos de Wiener, Delsaux e Carbonelle, entre 1863 e 1895 que se chega à teoria molecular dos gases.

Já em 1811, Avogadro estabelecera a sua hipótese de que volumes iguais de gases contêm o mesmo número de moléculas.

Porém só em 1875, Van der Waals mede o número de Avogadro = 6 x 1023 moléculas por mole (molécula-grama de um gás).

Mas só com a realização de experiências no domínio da electricidade se dá o grande passo...

Assim, em 1880, é observado o primeiro feixe de raios catódicos num tubo de Crookes.

 

   

 

E em 1895 J. Perrin demonstra que os raios catódicos são na realidade partículas em movimento.

Mas é com a famosa experiência de J. J. Thomson que se evidencia, por um lado, serem tais partículas desviadas pelos campos eléctricos e magnéticos e possibilita, por outro, medir o quociente e/m – das suas cargas pelas respectivas massas.

E assim nasce o electrão, a primeira das partículas elementares, indicada pelo símbolo e...

A Aventura Quântica, 1


 

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              Em outras ocasiões, os “estranhos sonhos”, ou “vislumbres tumultuosos de uma qualquer memória não terrena”  de Atlan condensavam-se na visão de miríades de Seres Alados que nos primórdios turbilhonaram a ebulição dos céus num frenesim de estranhas batalhas.

              Eram milhares, ou mesmo milhões, de seres poderosos que viviam entre o céu e a terra  e que pareciam ter resultado da fragmentação em múltiplos estilhaços de uma qualquer divindade única e inicial...

              Era uma época de tempos sem tempo.

              E em que o poder desses seres prevalecia sobre as próprias leis da física.

              Atlan mostrou a Íris a folha de papel já amarelecida pelos anos onde descrevera um desses seus “sonhos” de invulgar nitidez que tivera recorrentemente na sua infância.

              Chamava-lhe “Batalha Púrpura” porque lhe parecia uma contenda travada sobre as nuvens inflamadas dos tons avermelhados do sol poente e tingidas do sangue dos cavaleiros…

              E durante esse “sonho” ou “regresso momentâneo do seu espírito a outro lugar e a outro tempo” ele, Atlan, sentia que estivera lá, naquele cenário, lutando por uma qualquer causa agora desconhecida.

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Mas Ptah decaíra inicialmente apenas para um estado intermédio...

E, tal como o bosão intermediário,

...Ele(s) viviam entre o céu e a terra.

...Eram miríades de cavaleiros que povoavam as nuvens fúlgidas...

 

 

                             A Batalha Púrpura                            

 

Os cascos dos cavalos martelavam furiosamente

as poças vermelhas dispersas por toda a parte.

 

Os cavalos seriam brancos,

mas, ou tinham reflexos de fogo,

ou estavam tingidos de sangue.

 

No centro de todas estas nuvens, banhadas de púrpura

pelo sol poente, Eólipus lutava com vigor.

Mergulhado até aos joelhos, mas de pé firme,

brandia furiosamente a espada.

O seu cavalo estava já não sabia onde,

mas ele continuava,

escorrendo sangue pelos braços, pelos flancos,

pelas espáduas.

Golpeava, penetrava e decepava

os valentes e nobres adversários.

 

O vermelho tudo tingia.

Era um banho de sangue,

era a violência total. A dor. Implacável.

As nuvens estavam alagadas

 de pequenas e grandes poças de sangue;

os cavalos atropelavam-se;

os guerreiros rasgavam-se.

 

Mas, surpreendentemente… era belo.

Até mesmo magnífico!

Era a apologia total da violência…

…Mas de uma violência divina…

 

...porque, afinal, todos eles eram Reversíveis.

E por isso tinham o poder de se reconstruirem,

de se regenerarem..

...totalmente!

 

...

e

então,

no agora,

Atlan supunha

 que o que tornava tão terrível

    a   violência na Terra,

e insuportável a dor,

era a irreversibilidade.

 

 

... porque todos nós somos, afinal,

escravos do Tempo.

.

 

Nunca houve um tempo que Eu não tenha existido, nem tu, nem todos esses reis; nem no futuro nenhum de nós deixará de existir...

 

Diálogo entre Krishna e Arjuna,

 antigo texto Veda do “Bhagavad-gitä”

 

 

Fragmento #1

 

Os Seres Alados...

 

Olhos de azul-lápis

                        e todas as cores

que te olhavam

                        e te não viam.

 

Asas douradas

                        esvoaçantes nos céus;

riscos brancos

                        tingidos de lágrimas.

Tingidos de lilás

                        ou roxo...

...Até encontrar, de novo,

                        o néctar do Impossível!

 

Fragmento #2

 

…e os Pheros

O grande monarca, no trono sumptuoso, estava imerso em profundas reflexões:

 

“Um dia, Gea veio ter comigo a Uruk. Foi há muito, muito tempo...

“Trazia um pequeno Phero* ao colo.

“E pediu-me que a deixasse levá-lo ao mundo de baixo.

“Seria uma curta viagem”, dissera, “...em breve regressaria.”

“Como justificação deu-me um propósito indefinido.

“Mas o  Phero nunca mais voltou.”

...tinha ficado perdido no tempo.

“Estranho e Pheroz Phero aquele, que se refugiava no convívio dos leões.

“Sempre lhe pressenti uma vontade obstinada e qualquer objectivo desconhecido, mas nunca o compreendi.

“Nem à sua força Impetuosa e indomável, capaz de vergar leões*.

 

“Gilgamesh, onde andará ele agora?...”

 

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              Reminiscências passadas?

              Porque se identificava Atlan tanto com algumas espécies de seres lendários?

              Em certos momentos a sua memória parecia descerrar um véu que o deixava entrever vivências de seres poderosos que se situavam entre os deuses e os homens...

              Íris questionava-se muitas vezes se esse fenómeno não seria afinal uma capacidade mais aguçada que o comum que Atlan tinha de recordar fragmentos de uma “memória colectiva” subjacente a todos nós. O “inconsciente colectivo” da nossa espécie?... Não, parecia algo mais profundo e abrangente do que isso...

              Segundo mais tarde Atlan lhe explicou, ele considerava todas as entidades existentes, isto é, todos os seres e objectos, como “nuvens de possibilidades”.

              – Qualquer entidade existente, Íris, é afinal uma nuvem de possibilidades que contém, predominantemente, essa determinada entidade mas também todas as outras entidades alternativas, as quais, aparentemente, ela não é.

              – Mas então, se tudo são “nuvens de possibilidades” – perguntou-lhe Íris – o que é que distingue as coisas umas das outras?

              “Uma boa questão, sem dúvida”, pensou Atlan continuando a caminhar com o olhar preso no infinito.

              – Talvez apenas a memória Íris. Talvez seja apenas um diferencial de memória o que nos separa, por exemplo, dos deuses...

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Finalmente, em 1910 Milikan realiza a experiência que permite medir a carga eléctrica do recém-nascido electrão.

Já há algum tempo atrás se conhecia o fenómeno luminoso da interferência que levava a admitir ser a luz uma onda sinusoidal que se propagasse no espaço como as vagas no oceano.

       E Maxwell, em 1868, definira o seu movimento numa das mais elegantes equações da física, considerando as vibrações luminosas como o caso particular das ondas electromagnéticas em que a frequência de oscilação  é maior , o que corresponde a um menor comprimento de onda.

Em 1896 Henri Becquerel descobre a radioactividade, através da impressão acidental das radiações de sais de urânio numa placa fotográfica.

E em 1899 Giesel e Meyer descobrem uma outra radiação penetrante dotada de carga eléctrica.

Marie Curie, Villard e Becquerel descobrem radiações sem carga eléctrica em 1901.

É então que Rutherford, em 1903, identifica a radiação a como uma partícula e conclui que a radioactividade é o sinal da desintegração do núcleo atómico.

       Mais tarde, sugere um modelo atómico onde electrões giram em torno de um núcleo de carga eléctrica positiva mas da mesma magnitude que a dos seus electrões.

Admite-se então que:

a partícula a é um núcleo de hélio (2 protões e 2 neutrões)

o raio beta é um electrão

o raio gama é um quanto de radiação electromagnética

 

...e supõe-se que o fotão será um “grão de luz”.

 

A Aventura Quântica, 2


 

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              “Um deus no corpo de um homem não é um deus nem é um homem”, ouvia Íris tantas vezes dizer Atlan quase que num queixume. E, nesses momentos, quando olhava para ele, talvez num fugaz momento da sua imaginação, parecia-lhe não o ver simplesmente a ele mas a um ser complexo… talvez algo como uma mistura de seres, talvez algo como um Ptah-Eólipus-Gilgamesh-Atlan…

              E então soltava a sua fantasia e deixava-a voar até admitir a hipótese de que aquele jovem que caminhava ali, ao seu lado, pudesse ter sido, algures nos meandros da teia da existência e do tempo, uma qualquer espécie de ser dotado de poderes quase ilimitados ou divinos que, por algum motivo, decaíra para um estado de baixa energia e agora sofria com isso e só ansiava por recuperar a divindade da sua natureza perdida... Percebia-lhe o seu sofrimento, angústia e pavor de nunca vir a conseguir recuperar o seu anterior estado intemporal e quase absoluto. Isso claro, se as “estranhas memórias” de Atlan tivessem qualquer base real…

 

              Por vezes Atlan também sonhava com supostas soluções para o seu problema: soluções que possibilitassem transmutar-se a si e à realidade nas suas condições anteriores à queda no estado humano e mortal. Alguns desses sonhos seriam possivelmente o resultado de tantas horas de pesquisa como as que despendia na física das partículas sub-atómicas:

 

              “Se alterarmos o bosão intermediário, toda a realidade se alterará”... fora esse um dos estranhos sonhos que tivera. E que no momento lhe parecera uma estrela, uma luz na escuridão. Uma porta para a Liberdade Total.

              Mas, de novo lhe faltavam meios para testar mais essa ideia. Não era fácil remar sozinho contra tudo e todos e querer abarcar ao mesmo tempo os segredos mais íntimos da estrutura da existência…

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              Devido a partilharem cada vez mais o encantamento que rodeava o segredo da transmutação, Íris e Atlan passaram a encontrar-se com frequência.

              Eram habituais os seus longos passeios através da frescura de frondosos jardins onde passavam horas e horas a deliciarem-se com aquilo que iam conhecendo um do outro.

              Por vezes entrelaçavam as mãos e Atlan apercebia-se de como era macia e acolhedora a pele de Íris e de como era bom estar ali, simplesmente, com ela.

              Ele possuía uma invulgar memória onírica e contou-lhe, com uma precisão admirável, sonhos que tivera há muitos anos atrás, alguns deles ainda na sua infância. Mas aquele que mais a impressionou foi “A Saga de Eoalkper Eoasell”.

              Devido à sua estranha nitidez assemelhava-se mais a uma experiência realmente vivida do que a um sonho. E quando Atlan o evocou, ao começar a contar-lho, Íris olhava para ele e sentia que ele o vivia de novo:

              – Subitamente caí num sono profundo e vi-me a mim próprio numa outra parte da Terra sulcada de ilhas numa época distante. E nem sequer me chamava Atlan, chamava-me Eoalkper Eoasell...

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A saga de eoalkper eoasell

síntese simbólica de um percurso

 

Há coisas que nunca se podem verdadeiramente dividir...

 

            Há muitos milhares de anos, perdida na imensidão do tempo, existia uma pequena nação de guerreiros onde vivia uma criança chamada Eoalkper Eoasell.

           

Eoasell era um menino com sete anos de idade em tudo semelhante aos outros. Mas, tinha a estranha sensação de que aquilo que era, não correspondia ao seu verdadeiro ser. Sentia que este seu corpo era muito frágil e limitado; como que o estranhava. Porém, perguntava-se:

            “Como posso estranhá-lo se nunca tive outro?”

           

Por vezes, tinha realmente a sensação de que já tinha tido uma natureza diferente, poderosa e ilimitada e, que agora, estava aprisionado neste corpo onde aprisionadas estavam também as suas capacidades.

            Não, esta não poderia ser a sua verdadeira natureza: nas suas brincadeiras, a sua força interior, fazia-o saltar de altos muros, mas ao aterrar, rachava a cabeça e magoava-se. Apesar disso, persistia, sentia que não poderia ser assim, ele não era assim, não poderia ser assim frágil.  Ao brincar de guerreiro, atirava-se sozinho contra muitos adversários. As outras crianças envolviam-no como formigas e acabavam por fazê-lo tombar. No interior de Eoasell pulsava um outro tipo de ser — um ser indomável e ilimitado. Um ser que se entristecia por não poder cruzar os céus como um cometa e mergulhar no fogo do sol, atravessando-o de um lado ao outro e ficando ao rubro, mas mantendo-se indestrutível, imparável, pleno de liberdade total.  Deveria ser capaz de derrubar muros, de remover rochedos, de parar a chuva e, sempre que se ferisse, o seu corpo deveria regenerar-se de imediato. Eram estas as estranhas sensações do pequeno Eoalkper Eoasell.

 

Quando fez quinze anos, passou casualmente em casa de Elinoa, uma velha sábia, e encontrou-a reunida com outras anciãs. Soube que algumas eram de terras distantes, do outro lado da costa.  Como estavam na estação fria, sentavam-se em volta do fogo que crepitava e contavam lendas e histórias de um passado longínquo e nebuloso. Uma dessas lendas causou um impacto e um sentimento de familiaridade inesperados em Eoasell. Quem a contava chamava-se Amaroa:

 

“Há muito tempo atrás, existia um deus chamado Manu. A sua aparência física era semelhante à de um humano. Diz-se até que foi criada por ele a nossa  espécie.

“A dada altura, não se sabe bem porquê, Manu decidiu deixar de ser um deus para se tornar humano. Talvez porque se sentia só e queria ser um entre muitos seus iguais, ou porque queria fazer evoluir os seres humanos a algo semelhante a si próprio, ou porque se queria transcender... ninguém sabe ao certo.

“Manu fragmentou-se então em muitas partes e misturou –se com as almas dos embriões humanos. Ao dividir-se em várias partes perdeu a consciência de si próprio e entrou no oblívio, no esquecimento de si mesmo. Porém, em algumas crianças, sobraram memórias vagas da natureza passada de Manu.

“Foi o que ocorreu com um menino chamado Eus. Desde muito cedo começou a sentir uma estranha nostalgia. Era como se estivesse habituado a outro tipo de existência, mais livre, com menos impossíveis. Sentia-se também pouco integrado na sua espécie. As outras crianças não partilhavam da sua sensibilidade e do seu gosto por desvendar os mistérios do universo. Divertiam-se a fazer mal aos animais e faziam chacota do seu interesse por aprender as ciências do mundo. Mentiam e, por vezes, roubavam-lhe coisas. Eus não compreendia a maldade que encontrava nos seus semelhantes, sobretudo nos  adultos que cometiam actos ainda mais cruéis e brutais. Não se sentia fazendo parte da mesma espécie nem se sentia em casa. Por isso sonhava em encontrar o caminho para “casa” e conviver com os da sua “própria espécie”.

“Um dia teve um sonho muito estranho. Sonhou que estava suspenso a alguns metros do solo sobre umas colinas verdes onde passava um ribeiro. Ele irradiava energia e tudo à sua volta, as árvores, o céu e a água, pareciam ondular e vibrar de acordo consigo numa coreografia viva e plena de amor. Toda a natureza em seu redor comportava-se como uma extensão de si próprio. Depois, subitamente, o seu corpo transformou-se numa bola de fogo que ascendeu ao céu e explodiu em inúmeras centelhas de luz. As centelhas voaram e, como que por instinto, cada uma delas encontrou um feto humano com o qual se fundiu. Aqui, Eus acordou.

“Depois desse dia, a natureza de Manu começou a despertar em Eus que, como que por instinto, seguia o caminho para alcançar a liberdade dessa existência sonhada.

“Após ter vivido ainda muitos anos alcançou-a mesmo e tornou-se um ser sem limitações como Manu, mas conservou também todas as boas qualidades da humanidade.

“Assim termina a lenda de Eus” – concluiu Amaroa.

 

Uma lágrima rolou quente pela face de Eoasell. Era a primeira vez que ouvia algo de comum com o que sempre sentira  no seu interior. Pensou que talvez algo de idêntico com a lenda que escutara tivesse ocorrido com ele. Isso explicaria a sensação que sempre tivera de não pertencer verdadeiramente ali e de já ter sido um ser muito diferente.

Quer fosse assim ou não, Eoasell começou a pensar que deveria ser possível transformar-se num ser ilimitado. “Mas como?” – interrogava-se.

A sua busca não foi fácil. Frequentou todos os arquivos e leu todos os escritos que pôde, mas não havia quase nada que o pudesse ajudar a descobrir como conseguir transformar a sua natureza em algo ilimitado. Era algo estranho e ignorado.

Prosseguiu no entanto com a sua aprendizagem sobre o que se conhecia do ser humano e das leis da natureza. Havia vestígios de ciências antigas, de um tempo em que houvera na Terra um conhecimento mais avançado e parcialmente perdido. Depois da sua deambulação por vários lugares do seu mundo e da meditação daquilo que se conhecia da história da humanidade, só lhe restava deixar-se guiar pelo seu instinto e pela sua intuição. Começou então a fazer experiências consigo próprio. Aprendera uma coisa com um velho místico que conhecera numa ilha distante e que lhe trazia uma espécie de conhecimento silencioso. O velho dizia que era uma forma de beber directamente da fonte do conhecimento universal. Era uma espécie de meditação em que se mergulhava por breves instantes num estado sem pensamentos. Durante esse tempo a consciência habitual anulava-se e ficava apenas um outro tipo de consciência, uma consciência impessoal. O velho Quatl chamava-lhe  atingir o estado zero, tornar-se no nada.

“Ser o nada e conseguir doseá-lo, manejá-lo, nisso consiste o grande segredo da existência” — dizia.

Porém, para o próprio Quatl, isso era uma verdade intuitiva e nem ele compreendia todo o seu alcance.

“É muito difícil atingir o nada” — prosseguia o velho --”e mais difícil ainda conseguir sê-lo e manejar esse estado, entre o nada e o ser.”

 

Um dia, Eoasell teve um grave acidente. Caiu por um precipício e através dos seus ferimentos perdeu quase metade do seu sangue. As dores eram lancinantes e sentiu que estava a morrer. Então, subitamente, mergulhou numa espécie de sonho, mas sem as características habituais de um sonho; possuía todas as qualidades e nitidez de uma experiência real: encontrava-se à entrada de um estranho edifício que reconheceu ser uma biblioteca, não tendo no entanto visto nunca uma igual. Também o tempo e o lugar lhe eram estranhos. Apesar disso entrou e sentiu-se fortemente atraído por um dos volumes daquilo que lhe disseram ser um livro, um conjunto de folhas envolto por uma capa dura. Abriu-o, aparentemente ao acaso e, sem saber como, compreendia perfeitamente a língua em que estava escrito. Mas o mais surpreendente é que estava lá tudo, com uma clareza e uma simplicidade impressionantes. Todos os segredos que procurara desvendar todos esses anos: os segredos acerca do  controlo total sobre o corpo e a alma e sobre a expansão da consciência.

Os princípios eram tão claros que resolveu experimentar de imediato. A primeira sensação que teve foi a de sentir o seu corpo flutuar até se encontrar próximo do tecto da sala. Nessa fase sentia que metade do seu eu estava no seu corpo e metade espalhada no ambiente à sua volta. Expandiu mais a sua consciência, a sua presença, e percepcionou uma parte do mundo em que estava inserido. Viu centenas de pessoas, de casas, de paisagens...

Expandiu-se ainda mais e viu uma multidão de imagens, de rostos, de acontecimentos. Teve a sensação de que era toda a Terra.

O movimento de expansão continuou e as sensações tornaram-se mais difíceis de definir porque eram visões caleidoscópicas, muitas imagens de muitos mundos, de muitas realidades. A sua consciência estava espalhada por toda a existência.

Entretanto, o movimento prosseguia. O seu ser deixava-se ir, atraído cada vez mais para o todo, para o infinito... até que as formas já não eram distinguíveis. A sua percepção de conjunto assemelhava-se a um oceano de energia com um formato semelhante a uma galáxia de uma luz suave e de cor clara, na qual estava a essência de todas as coisas. Havia apenas um som que era a fusão de todos os sons e se assemelhava ao rumor longínquo de um oceano, porém constante, infinito e incessante. Havia apenas um sentimento, agradável, de paz, de totalidade, de suave plenitude. Mas o que mais caracterizava este sentimento era a ausência de ego e do seu eu, uma sensação impessoal de pertencer à consciência universal (seria Deus?). Havia apenas uma cor, apenas um som, apenas um sentimento.

Eoasell sentia-se como que uma gota de água a começar a mergulhar e a dissolver-se nesse oceano existencial. Sentia que era um indivíduo com a sua pequena consciência prestes a perder a sua individualidade para passar a fazer parte dessa consciência gigantesca e impessoal. Era como se estivesse próximo de deixar de ser. A existência absoluta afigurava-se-lhe semelhante à não existência. Ao mesmo tempo, aquele estádio, parecia ser o patamar máximo que qualquer ser poderia algum dia atingir: a eternidade, a paz absoluta. A imutabilidade resultante da soma de todas as mudanças.

Sentiu que estava a ir longe de mais e que, se avançasse apenas mais um pouco, o processo seria irreversível e jamais poderia recuar. E perderia também, para sempre, a sua consciência individual.

Tudo isto foram as suas impressões e reflexões realizadas apenas numa fracção de segundo, nessa fase intermédia em que a sua mente principiava a deixar de pensar e começava a diluir-se na essência da totalidade. Mas foi o bastante: produziu-se imediatamente um movimento súbito de recuo, como um elástico. Sentiu-se atravessar rapidamente em sentido inverso os estados anteriores que o conduziam à sua individualidade e abriu os olhos num sobressalto: não estava na biblioteca. Encontrava-se deitado no seu quarto e ao seu lado, olhando para si, estava Quatl, boquiaberto.

“Onde estava o livro?” – foi o primeiro pensamento de Eoasell. Procurou desesperadamente lembrar-se do que lera. Por um momento tivera na mão todos os segredos da existência e agora não se lembrava de quase nada. Apenas recordava uma frase síntese, algo como “o que é preciso é ser o nada e manter o nada”... uma frase semelhante à que lhe dissera o velho.

“O que aconteceu?”– perguntou Quatl –“Pensei que tinhas morrido. Já faz algum tempo que o teu corpo tem estado completamente inerte, como morto; tens estado sem respirar e o teu coração sem bater.”

Eoasell contou-lhe a sua experiência e o velho disse-lhe que possivelmente estivera muito próximo da morte física e que, se não tivesse recuado, o seu corpo não teria regressado à vida. Disse-lhe também que, provavelmente, acabara de desperdiçar uma das raras oportunidades que o ser humano tem de voltar a fundir-se com a Unidade e atingir assim a paz obtida pela libertação do ego e do sofrimento da consciência individual. Provavelmente, a possibilidade que lhe restava agora seria a de efectuar uma longa caminhada até ao dia em que, eventualmente, pudesse atingir um estado de pureza tal que o seu ego se desvanecesse e ele conseguisse, enfim, descansar na plenitude da “inexistência” dessa existência absoluta que ele havia percepcionado como um mar de energia.

Depois dessa experiência, tentou em vão recordar-se do que lera nesse estranho livro. De qualquer forma, sentia-se diferente, como se os seus horizontes interiores tivessem alargado e o alcance da sua mente se tivesse expandido.

 

A sua mente era agora mais rápida. A partir daí, lançou-se progressivamente numa exploração vertiginosa do alcance do seu próprio pensamento. Pôs tudo em causa, dissecou todas as ideias, pensou os seus próprios pensamentos. Reflectiu sobre a origem do mundo e do universo, sobre Deus e o objectivo da existência e descobriu que, ao ultrapassar os limites do pensamento, penetrara nas raias da loucura. Verificou que para atingir determinadas acepções tinha de pôr de lado a lógica e o senso comum e, quando as características do pensamento se diluíam e todo o raciocínio se tornava difuso, era preciso, mesmo assim, continuar, nem que fosse às cegas até encontrar, de novo, a luz.

Esse foi o início daquilo a que chamaria mais tarde “a  batalha da loucura” –  o atravessar do túnel do pensamento até sair, finalmente, pelo buraco oposto.

Era como atravessar um longo campo de areias movediças. Parar a meio seria afundar-se, seria enlouquecer. Era necessário avançar, avançar sempre. Os extremos tocavam-se e a luz deveria voltar a surgir e com ela o alcance do seu objectivo: a amplificação da consciência.

Eoasell não sabia que essa seria uma batalha que, ainda que entrecruzada com muitas outras, se estenderia por cerca de vinte anos...

 

A sua busca, todavia, continuou. Em breve realizou a primeira experiência consigo próprio, em que procurou transcender os limites do seu ser. Baseou-se numa ideia que vinha desenvolvendo há algum tempo atrás, fruto da sua pesquisa e reflexões. Pressentia em todos os seres uma mesma natureza intrínseca, uma força, uma energia ilimitada. O que cristalizava os seres humanos em formas tão limitadas de poder era uma espécie de fuligem que encobria essa energia luminosa que agora apenas ardia no âmago dos seres, reduzida à dimensão de uma centelha. Essa fuligem era constituída por todas as dúvidas e temores que castravam o infinito em cada um de nós.

Todas as nossas crenças nas impossibilidades disto e daquilo aprisionavam-nos em gaiolas existenciais. Assim como também todos os nossos condicionalismos: só estaríamos libertos e limpos quando ultrapassássemos os limites impostos pela nossa espécie, pelo nosso sexo, pela nossa idade, pela nossa nacionalidade, pela nossa educação, pela nossa realidade, pelo nosso ser.

 

Mas o que Eoasell não sabia ainda, era que para atingir a Liberdade Total do seu Ser teria que desaprender muitos dos dogmas que a sociedade dos homens lhe inculcara e que o encarceravam numa gaiola de dúvidas. E eram essas dúvidas que o impediam de aceder às suas capacidades infinitas.

E teria também de ultrapassar diversos fracassos, decepções e períodos de desânimo ou aqueles que viriam a ser alguns   dos seus longos  ‘Anos Negros’...

 

...e ainda assim persistir, sempre, na sua escalada pelas escarpas que talvez o conduzissem à transmutação.


 

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              Hoje era um dia muito especial para Íris, um momento aguardado com muita ansiedade.

              Era hoje que Atlan iria, finalmente,  mostrar-lhe algo que mencionara já por diversas vezes mas sempre com receio e talvez até com alguma vergonha de partilhar por ser algo tão íntimo.

              Ao entrar no jardim olhou para o lago e viu que Atlan já lá estava, sentado no seu banco preferido com um espesso caderno entre as mãos.

              Hoje Atlan deixá-la-ia ler algumas das primeiras páginas do seu “Diário das Transmutações”.

              Ele chamava assim ao “diário” de experiências onde registara as diversas tentativas praticas que fizera  para se transmutar.

              – O que te vou mostrar, Íris, é apenas um livro de apontamentos onde anotei, de forma sintética, as ocorrências mais significativas processadas durante esses períodos de tempo em que ascendi a fases mais elevadas e poderosas do meu próprio ser – explicou-lhe Atlan enquanto folheava o caderno de capa dourada. E prosseguiu:

              – É uma espécie de diário das abordagens que fiz à transmutação; muito embora, no início, eu quisesse apenas  explorar toda aquela minha realidade interior que se projectava para além do meu estado mais normal e comum e me prometia mil e uma capacidades fantásticas!... A vanguarda da psicologia correlaciona, actualmente, alguns desses fenómenos com os chamados “estados alterados de consciência” nos quais possuímos uma maior facilidade para desencadear acções paranormais... talvez porque o nosso cepticismo e tendência para duvidar das nossas infinitas capacidades se encontram enfraquecidos nesses estados especiais de consciência. No entanto, Íris, para já, prefiro que leias apenas as minhas três experiências iniciais e que deixemos as outras para mais tarde...

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O Diário de Atlan – 1

 

 

 

A minha 1ª Abordagem: 

 

Na minha primeira tentativa de alcançar um estado ontológico acima do estado comum, o meu objectivo principal era conseguir agir directamente na matéria através da minha consciência.

 

Parti da hipótese de que, se acreditasse totalmente que conseguiria actuar num objecto, suprimindo qualquer dúvida, o resultado seria efectivo.  Baseava-me na leitura de registos em que determinados indivíduos, através do poder da fé, tinham realizado acções aparentemente impossíveis.

 

Tentar suprimir todas as dúvidas em que conseguiria actuar num objecto, sem lhe tocar fisicamente, revelou-se impossível. Havia sempre uma dúvida latente. A dúvida está relacionada com a lógica e o raciocínio, ambas actividades do consciente. Pensei então que deveria experimentar enfraquecer a actividade consciente. Nos sonhos acreditamos e conseguimos fazer coisas que nos parecem impossíveis quando acordados. Possivelmente porque o córtex cerebral durante o sono entra em repouso, reduzindo a actividade consciente e racional.

Havia que cansar o córtex, provocando que entrasse em repouso mas sem que eu ficasse adormecido. Seria algo semelhante a entrar num estado de sono acordado.

 

Mantive-me sem dormir durante seis dias e seis noites.

 

Encontrava-me no sul do país, no Algarve, a trabalhar num Aparthotel durante o meu período de férias escolares que antecedia a entrada na universidade. Fazia o horário das 10h da noite às 5h da manhã no bar-discoteca do empreendimento.  Passava o resto do tempo em constantes actividades para não adormecer.

 

Ao 4º dia senti que o meu pensamento racional e crítico era já muito ténue.  Uma das primeiras sensações estranhas foi a de pressentir grande parte dos acontecimentos com minutos ou horas de antecedência.  O meu corpo movia-se de um local para outro conduzido por vontades espontâneas da minha consciência mas sem pensar, sem reflectir.  Ao conversar com algumas pessoas sentia que diversas ocorrências se tinham passado com elas e obtive as suas confirmações.

 

O meu intelecto parecia tornar-se, também, cada vez mais rápido e poderoso.  Estive, nessa altura, em casa de uma família holandesa com a qual me comunicava em Inglês, por ignorar completamente a sua língua. Subitamente, todos os elementos da família irromperam numa discussã, falando holandês. Não sei explicar como mas, a dado momento, deparei comigo a compreender tudo o que diziam.

 

Na manhã do 5º dia, encontrava-me na recepção de um aldeamento turístico a olhar para uma placa onde estava escrito, em seis línguas, o seu regulamento.  Sentia  a  minha mente a ler e a relacionar, com uma velocidade incrível, todas as frases e palavras nas diversas línguas e a aprender o significado das palavras que eu desconhecia. Nessa época, além de português, apenas falava um pouco de Francês e Inglês.

 

Mais tarde, assisti, durante cerca de trinta minutos, à transmissão televisiva do campeonato de salto e mergulho em piscina.  Não tinha qualquer conhecimento prévio mas observei com toda a atenção os perigosos e difíceis saltos mortais, triplos mortais, parafusos, empranchados, etc. Em seguida, dirigi-me à piscina do Aparthotel e, da prancha mais elevada, executei razoavelmente bem, com uma habilidade que desconhecia, os mergulhos mais difíceis que tinha observado, pela primeira vez, momentos antes na televisão.

 

Junto à piscina havia um quiosque com livros em várias línguas estrangeiras (o Algarve é uma região turística frequentada por pessoas de  diversas nacionalidades). Tinha começado, havia pouco, a falar com um grupo de rapazes holandeses que estavam admirados com os meus mergulhos. De repente, disse-lhes que, se quisesse, conseguiria ler e compreender a sua língua.  Escolhi um livro em holandês da prateleira do quiosque e abri-o ao acaso.

Comecei a traduzi-lo rapidamente para Inglês. ‘A medida  que  eu  lia  eles verificavam  que  a  tradução  estava correcta.  O que eu sentia na minha mente, quando lia, pareciam ser uma série de operações muito rápidas de análise a cada palavra, a cada frase, procurando semelhanças com palavras das línguas que eu conhecia, tentando encontrar o significado pelo contexto lendo mais à frente e voltando atrás, encontrando outros significados por intuição, decomposição das palavras, etc.  Porém todas estas operações eram muito rápidas e não se notavam porque, como resultado final, eu traduzia, falando a uma velocidade normal.

 

Toda a minha hiperactividade deu lugar a muitas outras situações estranhas.  Em dado momento, apeteceu-me dispor de um carro por algumas horas.  Como a minha normal tendência para duvidar, estava já muito enfraquecida, pensei: “Vou por esta rua e ao voltar da esquina, vai passar-se algo que me proporcionará um carro.”  Fui e não duvidei. Ao voltar da esquina, encontrei um conhecido da minha cidade, que estava no Algarve a passar férias. Eu conhecia-o mal ma, em poucas frases fui persuasivo e ele pôs-me o carro à disposição.

 

Na tarde do 5º dia, o meu perfil psicológico era o seguinte: encontrava-me num estado de maravilhamento com tantos poderes novos e desconhecidos. Sentia-me , no entanto, com alguma dificuldade em me conduzir pelo desenrolar dos acontecimentos, já que tudo era muito rápido e quase não havia pensamentos pelo meio. Era muito estranho não pensar, ou pelo menos, não pensar da forma comum.  Eu era impulsionado por um pensamento sem pensamentos. Quase como num sonho. E depois, como não duvidava, executava tudo o que essa espécie de consciência me ditava. Tinha desaparecido todo o pensamento aristotélico  e  cartesiano. Eu não pensava, eu agia; fruto dos impulsos de vontade de uma espécie de consciência mágica, não raciocinante. Por vezes, sentia que eu não conduzia as minhas acções, mas era conduzido.  Fisicamente sentia-me bem e com energia; já não me sentia cansado e com sono como sucedera nos 3 primeiros dias.

 

Ao fim da tarde do 5º dia atrevi-me a tentar a acção directa da mente sobre a matéria. Isto era o que temia como mais difícil, no meu estado normal. As tentativas frustradas no passado, tinham-me enraizado fortes dúvidas de obter sucesso. Talvez ainda não completamente liberto delas, tentei algo que me pareceu mais fácil:  Dentro do bar do hotel havia, em cada mesa, uma vela rodeada de uma campânula.  Surpreendi-me com a facilidade com que conseguia reduzir a chama, quase apagando-a e, aumentá-la até se tornar uma chama grande.

 

No 6º dia, estava na esplanada do bar com algumas pessoas, quando passou  próximo de nós um empregado, transportando uma bandeja cheia de copos. Disse aos meus conhecidos: “aqueles copos vão partir-se.”   Penso  que  quis fazer com que a minha acção mental os partisse.  Porém, eles não quebraram imediatamente. O empregado deu mais um passo e a bandeja caiu ao chão partindo os copos.

 

A partir daqui tudo se acelerou e complicou.  As pessoas que estavam comigo à mesa ficaram assustadas.  Alguém avisou o gerente que quis expulsar-me do local. Eu fiquei furioso e entrei no interior do bar. Ao entrar, a iluminação foi abaixo e tudo ficou às escuras. Gerou-se alguma confusão com o gerente e os empregados que estavam nervosos e assustados comigo.  Eu estava com a sensação maniqueísta  de que o gerente era um homem mau e perverso e abandonei o local.

 

Pouco depois, deparei comigo muito descontrolado emocionalmente. Estava com convulsões de riso e de choro, tudo ao mesmo tempo.  Sentia vontade de deixar tudo, de morrer.  Procurei desesperadamente uma escarpa para o mar, um precipício.  Estava convencido de que os havia ali, naquela zona da costa.  Mas enganei-me; quando cheguei à borda vi que esta era baixa e que se me atirasse não morreria.  Recuei sem saber o que fazer.  Nesse momento veio ao meu encontro uma amiga que se apercebera do meu estado. Deu-me algunss soníferos e conseguiu que eu dormisse cerca de doze horas. Quando acordei estava mais próximo do meu estado normal, mas ainda um pouco estranho.

 

 

Decidi regressar a casa. Dormi profundamente, durante toda a viagem de 700 Quilómetros até ao norte do país. Nos dois dias seguintes dormi a maior parte do tempo.

Sentia-me como um fusível meio queimado. Tinha perdido as minhas capacidades paranormais, já não sentia toda aquela energia dentro de mim e estava algo confuso e assustado com o desfecho da minha “aventura”.

Durante oito anos senti-me interiormente vazio.

 

 

Decorreram mais cinco anos em que eu continuava a sonhar com a minha escalada no domínio do paranormal, quando  realizara a 1ª abordagem à transmutação. Será que algum dia voltarei a ter outra oportunidade?


 

Quando Maxwell, em 1868, define o movimento ondulatório da luz, estabelece também, por via teórica, que a velocidade de propagação deve ser a mesma para todos os tipos de onda, definindo assim a mais poderosa constante física:   c, a velocidade da luz no vazio

                                     c = 3 x 10 10 cm / s  (ou  300.000 Km/s)

Mas só em 1890, Hertz confirmou experimentalmente a existência de ondas radioeléctricas não luminosas.

E em 1900, Max Planck lança a ideia inovadora de que a emissão destas ondas não seria contínua, processando-se antes por meio de uma espécie de “espasmos” a que chama ‘quantos’.

       A energia E, correspondente a um quanto de radiação electromagnética emitida pela vibração dos electrões de um corpo quente, varia, segundo Planck, na razão directa da frequência n da onda. As duas quantidades relacionar-se-iam através da equação fundamental:

                                             E = h n

       onde h é uma constante de valor muito pequeno, chave de toda a mecânica quântica: a constante de Planck

                h = 6,6 x 10-27 ergs  que com frequência se escreve

                H = h / 2p  =  6,6 x 10-22 MeV (Mega electrão Volt)

Em 1905, Einstein, baseado nos trabalhos de Planck, estabelece que o fluxo da radiação luminosa é apenas o somatório dos corpúsculos cujo número determina a intensidade. Em seguida estuda o efeito fotoeléctrico que consiste na incidência de um feixe de luz ultravioleta, emitido por uma lâmpada, sobre um metal ou sobre um gás. A luz ultravioleta possui uma alta frequência e, portanto, um pequeno comprimento de onda, tendo assim um grande poder de penetração na matéria. O feixe de luz UV, ao incidir nos átomos, arranca-lhes electrões que se podem extrair por meio de um potencial eléctrico positivo que os atrai. Ao contá-los, Einstein concluiu que ao aumentar a intensidade da lâmpada, há um aumento, não na energia dos electrões, mas sim no seu número. Este facto confirmava a hipótese de que cada electrão era expulso pelo impacto de um corpo isolado, espécie de grão de luz — o fotão.                                       

A Aventura Quântica, 3 


 

O fotão, quanto de energia electromagnética, foi inicialmente identificado como um grão de luz; depois como o raio gama de Becquerel e Curie; a seguir com os raios X, muito penetrantes e ionizantes que Roentgen extraiu, em 1895, de uma placa (anti-cátodo) bombardeada pelos raios catódicos descobertos por Crookes; e, finalmente, fotões de energia ainda maior podem ser encontrados na radiação cósmica e produzidos em aceleradores de partículas.

Assim, graças a Maxwell, Planck e Einstein, admite-se que a luz, embora apresentando propriedades de onda (como a de originar interferência), se comporta também como uma partícula. Compton daria a prova final em 1923.

Definem-se também os comprimentos de onda (l) de algumas radiações electromagnéticas:

                               -- ondas radioeléctricas curtas         1      cm

                               -- luz visível                                        10-5  cm

                               -- luz ultravioleta  e  raios X               10-6  cm

                               -- raios gama                                     10-9  cm

                               -- fotões de alta energia                     10-22 cm

Em 1913 conhecem-se o electrão negativo (e-), o fotão (g) e o protão (ou núcleo de hidrogénio).

As principais características a considerar na análise das partículas constituintes da matéria eram:

                          a Carga eléctrica

                          a Massa (m)

                          a Energia (E)  e  a quantidade de movimento (p).

A carga eléctrica negativa e do electrão é igual a 1,6 x 10-19 C  ou  4,8 x 10-10 ues CGS. Como não se descobriu qualquer carga menor que a do electrão conclui-se que é uma carga elementar, ou uma constante física de valor absoluto. A corrente eléctrica consiste no deslocamento de electrões ao longo de um condutor, cada um dos quais transporta uma destas cargas elementares, considerada como carga unitária -1. De acordo com isto, qualquer quantidade de electricidade só pode ser tida como a soma de um número inteiro de tais cargas elementares.

Este é o primeiro passo na direcção da teoria quântica ou, o que é o mesmo, na direcção de uma concepção das coisas que consiste simplesmente na adição de elementos indivisíveis, os Quantos.

A Aventura Quântica, 4


 

 

O Diário de Atlan – 3

 

A minha 2ª Abordagem: 

 

Foi um período longo. No total, incluindo algumas quebras, estendeu-se por mais de 6 meses.

 

Após os vários anos que decorreram desde a primeira abordagem, suponho que um dos factores que estiveram na origem desta 2ª “ascensão” se relacionou com um cavalo.  Comprara-o há mais de um ano e era a minha primeira entrada num mundo que sempre me fascinara: o da equitação. Apesar de ser um belo cavalo, revelara-se difícil no treino e nas duas únicas vezes que o montara havia sido violentamente projectado ao solo. Quando finalmente o cavalo se começou a entregar, fiquei radiante. Montava-o e treinávamos os dois quase todos os dias, durante horas e horas. Apesar de ficar exausto por travar autênticas lutas com o animal, o meu entusiasmo era crescente porque, de dia para dia, obtinha mais progressos.

 

Este exercício diário intenso, uma progressiva redução das horas de sono e uma alimentação mais rara, aliados à fusão energética que sentia com o cavalo, fizeram-me entrar num estado de espírito diferente.

O primeiro fenómeno invulgar que recordo, foi durante uma corrida que fiz, a pé, com alguns amigos.  Um deles tinha apenas 17 anos e era um óptimo corredor. Pouco depois de começarmos, imprimi uma aceleração tão grande que os deixei para trás vários metros. Continuei a correr sem sentir cansaço, mas antes, satisfação e prazer em cada passada que dava.  Quando parei, uma longa distância após todos terem parado, estava perfeitamente normal; sem respiração ofegante e sem pulsação acelerada.

 

Ao longo dos dias em que treinava equitação, por vezes em situações de cansaço extremo, eu obrigava-me a prosseguir os exercícios sem parar. Aí, desaparecia a sensação de cansaço e eu continuava por horas e horas.

O cavalo era um animal possante e rebelde; tinha provocado traumatismos em dois treinadores anteriores.  As minhas actividades com ele eram frequentemente verdadeiras lutas.  Transformou-se no meu ginásio físico e espiritual.  Sem me aperceber, espontaneamente, comecei a entrar em novo processo de transmutação.

 

Experimentava também, baseado em livros de Castañeda, a abstinência sexual e a canalização dessa  energia para me catapultar a estados de ser mais elevados. Dormia pouco e devorava livros. Estava fascinado com o ressurgir de capacidades paranormais há muito perdidas.

 

Vários fenómenos ocorriam: por vezes: borboletas vinham

 poisar nos meus dedos, outras vezes, eram aves que se aproximavam; a minha empatia com animais era muito grande, mas principalmente, com cavalos e cães. A maioria dos animais obedecia-me, ou melhor, compreendia-me com um pequeno gesto.

 

Passei a andar com um pequeno caderno no bolso em que escrevia, a cada instante, o que me surgia por inspiração.  A maior parte dos escritos, relacionavam-se com a transformação do ser humano comum, elevando-se ao estado de semideus.  Intitulei esse pequeno livro de “Meta-H” – significando “Meta Homem”, um estado para além do humano.

 

Uma ocasião, visitei uma escola de artes marciais, onde nunca houvera estado.  Alguns alunos apontaram para uma pintura na parede onde estavam os símbolos da sua escola.  Disseram-me que antes, estavam ali pintados outros símbolos.  Olhei para a parede e, não visualizei propriamente, mas antes senti, uma cobra e um macaco.  Quando lhes comuniquei o que tinha “visto” eles confirmaram surpresos.

 

Tinha cada vez menos vontade de comer alimentos convencionais. Comia muito pouco e gostava de me sentir assim; mais leve, mais espiritual.  Fazia, com frequência, os exercícios de absorção de energia solar, aprendidos nos livros de Castañeda.  Era a minha principal forma de “alimentação”.  Por vezes, à noite, sentia uma “fome imensa de energia”.

 

Ligava-me então, várias vezes, a fontes de electricidade, experimentando a sensação de absorver aquela forma de energia.  Não sei o que realmente se passava, nem se conseguia assimilar qualquer energia mas, estranhamente, não ficava electrocutado, sentindo apenas um tremor suportável.

Embora na altura eu não me apercebesse, penso agora que, por vezes, o meu  estado psicológico atingia algo de loucura. Em toda a movimentação e impetuosidade do meu dia a dia, sentia vontade de fazer coisas que, habitualmente, não são consideradas naturais ou de bom senso. Numa dessas ocasiões, senti que conseguiria levantar o meu cavalo. Coloquei-me curvado por baixo dele e, com a força das costas e das pernas, empurrei para cima o animal. Apesar de naquele momento ter uma espécie de certeza intuitiva de que o conseguiria, não deixei de me admirar quando senti que o animal se elevava ficando apenas as patas da frente a tocar o chão. Isto aconteceu numa praia e algumas pessoas vieram depois falar comigo não entendendo como é que eu o fizera. Eu tão pouco o sabia, pois o cavalo pesava cerca de setecentos quilos.

 

Os fenómenos mais estranhos relacionaram-se com a minha crescente empatia e identificação com o sol. Na verdade, sentia uma quase adoração pela fonte de energia que ele representava.

Nessa época costumava tomar o pequeno-almoço numa das esplanadas do edifício em que residia. Uma ocasião, durante o Inverno, estava tempo de chuva, cinzento e encoberto.

Naquele momento eu olhei para o céu com frio, e desejei que o sol brilhasse e me aquecesse por fora e também por dentro. De alguma forma que não consigo descrever, senti que eu e o sol éramos um e que, essa outra parte de mim iria brilhar, ao meu encontro, ao encontro de estreitar a sua ligação comigo. Senti que de alguma forma tinha comunicado com aquele astro, que se me afigurava não apenas como um astro mas com algo de mais vasto, relacionado com a energia do mundo e comigo – num passado ou futuro distante. Isto durou apenas um momento, mas muito rapidamente as nuvens começaram a dissipar-se e o sol brilhou forte e quente. Passados cerca de vinte minutos, não havia nuvens; o céu estava completamente azul.

Eu poderia atribuir esta experiência ao acaso porém, depois desta primeira vez, o mesmo fenómeno repetiu-se vezes sem conta e, cada vez mais, eu confiava nesta interacção.  Muitas vezes, eu tomava o pequeno-almoço acompanhado por uma colaboradora.  Quando estava mau tempo, por vezes até a chover, eu dizia-lhe, com uma naturalidade cada vez maior, para nos sentarmos na esplanada e não no interior, que iria fazer sol. E assim acontecia.

Passado algum tempo, o fenómeno era tão familiar para ela como para mim. Recordo-me de situações até algo cómicas: em dias de chuva ela pedia-me para “ir até lá fora, para o tempo melhorar”.

 

Todas estas pequenas ou grandes conquistas me enchiam

de satisfação por me parecer que cada vez estava mais próximo do meu objectivo final: a transmutação, total e irreversível. Porém, também me distraíam e me faziam andar à deriva, impedindo-me de concentrar energias no objectivo final e não nas dezenas de fenómenos fascinantes que surgiam pelo caminho.  Eu também não conhecia o caminho. Era como caminhar às escuras. Tentava avançar baseando-me em conhecimentos e hipóteses e na minha intuição. Eu pensava que só realizando a transmutação essa escalada seria irreversível e eu não voltaria a perder as faculdades alcançadas. Lembrava-me da minha 1ª abordagem após a qual voltara à normalidade.

A textura do meu próprio corpo parecia um pouco diferente e a capacidade de recuperação de ferimentos era muito rápida. Além disso toda a minha aparência física tinha-se tornado, de novo, muito mais jovem. Tinha a sensação de que apresentava sinais de principiar a transmutação do meu corpo num corpo incorruptível.

Por vezes, tinha dificuldade em controlar a enorme quantidade de energia que possuía.  Sentia-me como se estivesse ao volante de um automóvel com um motor demasiado poderoso em que não conseguia dominar a aceleração e derrapava nas curvas.  Tornava-me facilmente arrastado pelos meus ímpetos e não ponderava as minhas acções.

Outras vezes, tinha quebras em que me sentia muito fraco e vulnerável, possivelmente porque dormia e comia muito pouco. 

Numa dessas ocasiões, fui vítima de quatro agressores que me deixaram com muitos traumatismos e quase morto. Não obstante, a minha recuperação no hospital foi invulgarmente rápida.

Porém, como trabalhava por conta própria, o período em que estive hospitalizado e em convalescença foi fatal para os meus negócios. Isso e outros desgostos que tive no mesmo período arrastaram-me para o estado comum de normalidade e, posteriormente, para uma depressão psicológica.  Perdera completamente o estado de espírito energético e todas as capacidades paranormais.

Não conseguira atingir o ponto de irreversibilidade e tudo se desmoronara.

 


 

 

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              Atlan explicou-me que esta sua impossibilidade em conservar as “extra-capacidades” adquiridas durante as suas “ascensões” o precipitava depois em longos períodos de desânimo e desilusão nos quais se sentia novamente despido de quaisquer poderes.

              – Sinto-me como um alpinista que está muito próximo de atingir o cume e de repente se vê estatelado na base da montanha... De facto, Íris, quando regresso à frustrante normalidade sinto-me morrer – confessou-me ele um dia. – Voltar a ser um homem, depois de ter sido quase um deus, é a pior das torturas... é como sentir-me completamente esvaziado de energia e de poder; é terrível! Dá-me a sensação de que é um tempo que jamais irá terminar. Nessas fases mergulho na descrença e convenço-me de que jamais conseguirei concretizar os meus objectivos...

              Eram essas as longas temporadas a que Atlan chamava de “anos negros”... anos de sofrimento e dor. E perda da esperança de conseguir, algum dia, vir a transmutar-se.

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FIM DA FASE  I


 

D ® 0

h ® ¥

 

[quando o “estado divino” (ou “Deus”) tende para ZERO (0),

o “estado humano” tende para infinito(¥)]

                                                                    

                                               ...Deus apaga-se

 

                                               ...e nasce o homem.

 

 

 

...São os Longos Anos Negros da Escuridão;

 

 

 

 

da Ignorância;

 

 

da Perda de MEMÓRIA;

 

 

e do Obscurantismo...

 

 

 

 

 

...efeitos simultâneos da

 

 

Poderosa Máquina de

PROPAGANDA...

 

 

 

...é aí  “Onde Mora o Mal” !


 

 

 

 

 

FASE II

 

os negros anos luz

 

 

 

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              Aleator trabalhava no Instituto de Estudos Quânticos e era um dos maiores amigos de Atlan.

              Era um investigador que procurava conciliar duas grandes áreas de pesquisa: a psicologia e os fenómenos aleatórios. Conhecia Atlan desde a sua infância e seria ele quem viria a revelar a Íris muito sobre os seus longos períodos de desânimo.

              Atlan tentara por diversas vezes aceder aos “céus” para aí se transmutar mas, de cada vez que não conseguira aí fixar-se e consumar a sua transmutação, despenhara-se nos mais terríveis  “infernos” existenciais.

              Por vezes ficava num estado de inanição e num desinteresse tão grande que era como se morresse temporariamente. Então isolava-se de tudo e afastava-se, desiludido, ao encontro da morte.

              As suas saudades do “céu” eram tão grandes que não suportava a perspectiva de nunca mais para “lá” voltar; foi  isso o que sentiu Íris enquanto escutava Aleator contar-lhe sobre a carta que recebera de Atlan:

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Inferno

 

            Na primavera de 97 Aleator convenceu-se que, de facto, era verdade.

            Atlan desaparecera.

            A carta que recebeu, na véspera da sua partida para o Kazaquistão confirmou as suas suspeitas. Continha várias folhas e a que caiu ao chão foi a que leu primeiro:

 

                13 Abril 1997

         Amigo Aleator:

 

Pronto, estou no inferno!

         Eu sei que não me devo lamentar. Sei que mereço cá estar. Mas julgo também que não me é negado o direito a escrever sobre isso. A desabafar no papel toda a tortura que me vai na alma... Não o faço apenas por isso, mas por que sinto que, apesar de tudo – e de toda a loucura – houve uma multidão de acontecimentos e de experiências, muitos dos quais singulares e fantásticos, que devem ser registados e analisados.

         Apesar de tudo, e de ter desembocado neste beco estéril – o “inferno” – não deixou de ser uma odisseia estonteante, uma acrobacia ontológica, uma aventura louca!... que talvez eu gostasse absorvidamente de ler, não tendo sofrido e sangrado tanto por tê-la vivido  e não sufocando tanto com os remorsos pelo que fiz passar a mim e a outros...”

               

            Enquanto lia, as palavras passavam vertiginosamente pelos seus olhos deixando-o completamente absorvido. As paredes e o chão à sua volta apagaram-se envolvendo-o na escuridão.

            Então era assim que se sentia o canto do cisne?... uma melodia louca que se escondia por trás das palavras fazendo saltar um barulho imenso de silêncio?...

            Havia algo de definitivo no que lia. Uma sensação de “fim”.

            Era algo que deixava Aleator estupefacto pois, sem se ter apercebido, Atlan havia-o impregnado, ao longo dos anos, de um sentimento de eternidade, de imortalidade; como se fosse uma pessoa que não acaba nunca. E no entanto, racionalmente, ele nunca o admitira.

            Não conseguia parar de ler:

           

                “Fui um louco, um megalómano, um mitómano e um egocêntrico.

         E, ao mesmo tempo, paradoxalmente, não fui nada disso: fui apenas um miúdo que tentou ser um deus. Que acreditou possível e justo transformar-se num ser ilimitado e arrastou o seu ser humano, falível e frágil com muitos defeitos e algumas virtudes, como a maioria dos seres humanos, numa esforçada maratona sobre-humana que pôs mais em evidência as suas vicissitudes do que as suas qualidades e redundou numa marcha egocêntrica e trágica.”

 

            Numa outra folha continuava assim:

 

                “Ao tentar, num esforço titânico, tornar-me o céu, caí no inferno. Mereci-o. Desprezei o direito de outros àquilo que me parecia pequenez, desinteresse ou descrença na transmutação pessoal. Vi-os apenas como vultos que se movimentavam à minha volta. Uma sensação de desprezo se foi lentamente apoderando de mim por sentir um desprezo semelhante, nos outros, pelo alcançar do ‘céu‘ aqui na terra. E, sub-repticiamente, as minhas qualidades se foram pervertendo deixando-me apenas a ilusão de que permaneciam.”

 

         “Fiz muitos estragos. Passei por cima de muitas e importantíssimas coisas. Desrespeitei a fragilidade humana que é afinal como a minha própria. Achei que o meu plano, o meu projecto, era o mais importante e que todos tinham o dever de me abrir passagem. Fui intolerante e parcial para os que o não  fizeram! Desenvolvi sentimentos de cólera pelos obstrutores e auto convenci-me de que era ira divina. Julguei-me um deus, sem o ser ainda, e perdi a humildade... tudo sem me aperceber, num sonho louco, conturbado e agigantado.”

 

            Muito do que eu conhecia da vida de Atlan começava a fazer sentido. Embora já o conhecesse há tantos anos, tinham decorrido, por vezes, longos períodos de tempo em que eu lhe perdia o contacto. Depois, quando me encontrava com ele, havia certas frases e acções que não compreendia muito bem. Agora, suspeitava que durante essas ausências, Atlan tivesse estado completamente absorvido nas suas “escaladas ontológicas”.

            Peguei na folha seguinte e prossegui a leitura da sua carta:

 

                “Possivelmente não voltarás a ver-me. Gostaria porém que tentasses reunir os meus escritos dispersos, muitos dos quais poderás encontrar em minha casa e, juntamente com tudo o que sabes das minhas vivências, procurasses reconstituir os passos mais significativos da minha vida.

 

         Quando morre a esperança morre tudo. E eu estou a morrer.

        

Sinto necessidade de desaparecer.

         Como achas que me sinto? Ainda há menos de um ano o meu corpo tinha cerca de vinte e três anos e agora aparenta ter perto de quarenta?!...

         Estou em rápida deterioração. Todos os anos que travei estão a cair-me em cima vertiginosamente. E já não consigo, de novo, voltar a ser intemporal.

         Desapareceram as minhas capacidades extra-sensoriais.

O meu corpo definha dia para dia, enche-se de rugas, os cabelos caem, a pele enche-se de manchas vermelhas. Encarquilho-me. Não sei se para a semana terei oitenta anos...

Tudo se desmorona.

         Todos os objectivos da minha vida se esboroam...

 

A carta terminava com um poema de Atlan que eu me recordava de o ouvir “cantar” baixinho:

 

Se a minha tristeza

                 pudesse voar   

  Inundaria todos os espaços

  Tingiria de roxo todos os seres

 

  Até o rouxinol

que se despenharia dos céus

e se dilaceraria

        nos espinhos das rosas enganadoras.

 

  O mundo seria por fora

         aquilo que eu sou obrigado a ser por dentro.

 

 


 

Um quanto é o menor valor irredutível possível a que um parâmetro pode ser referido.

Este aspecto descontínuo da natureza é absolutamente insensível à escala da experiência quotidiana, o que fez crer, durante muitos séculos, que a matéria seria contínua.

Mas, quando a investigação desce aos componentes mais infinitesimais, em vez de se assistir a uma diminuição regular, observa-se a existência de discretos níveis de valores separados por saltos.

Se, após uma colisão, o átomo perde um dos seus electrões, transforma-se num ião cuja carga positiva é responsável pelas suas propriedades químicas mais relevantes.

Ao contrário do electrão, o fotão, electricamente neutro, não é afectado pelos campos eléctricos ou magnéticos. Mas nem por isso é menos capaz de provocar interacções electromagnéticas, pois é o veículo do campo eléctrico (denominado campo coulombiano), que rodeia todas as cargas. Assim, o fotão transporta, entre duas partículas electrizadas, à velocidade da luz, c, um quanto de campo electromagnético.

 

Em geral, as partículas apresentam inércia pois podem ser aceleradas e desaceleradas, de acordo com as leis da mecânica; portanto devem ter massa.

       O que é revelado por uma nova experiência em 1965, em que neutrões lentos saídos de um reactor são deflectidos para baixo pela gravitação com o valor correcto de g, a aceleração da gravidade (9,8 m/s2).

Einstein postulou que massa e energia se equivalem através da sua equação E = m c2. Assim a energia E que pode ser libertada pela destruição de um corpo de massa m é igual ao produto dessa massa pelo quadrado da velocidade da luz c. Daqui resulta ser habitual exprimir massa e energia nas mesmas unidades.

Assim, a energia adquirida por um electrão ao ser acelerado por um campo eléctrico de 1 V é 1 eV  (1 electrão Volt), ou 1,6 x 10-19 J.

São usados os múltiplos MeV - Mega eV (106 eV), GeV - Giga eV (109 eV), e TeV - Trilião eV.                                A Aventura Quântica, 5


 

 

……………………………………………………………………….

            Esta carta que Aleator mostrou a Íris fora escrita por Atlan ao fim de um longo período de depressão e sofrimento.

            Por vezes, após anos de preparação e espera para conseguir entrar em fase de ascensão, Atlan sentia que alguns dos seus poderes ressurgiam. Mas quando isso sucedia ele sentia  “elevar-se”  vertiginosamente de um modo muito difícil de controlar. Tentava aguentar-se então o maior tempo  possível nesse estado o que era semelhante a sentir-se em cima de um balão que, por se elevar demasiado velozmente  para os céus, parece prestes a rebentar a todo o momento.

            O seu poder interior aumentava mais e mais.        Porém, sempre que se sentira já muito próximo de se transmutar num ser incorruptível e com poderes quase ilimitados, despenhara-se e estatelara-se, profundamente machucado e despido de poderes.

            E as depressões que se seguiam eram suplícios de Tântalo, nuvens negras, imensidões de escuridão raramente entreabertas por um raio de luz ou um momento de paixão.

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Desânimo

 

 

            Ah, se ele pudesse libertar-se daquela depressão...

 

            Libertar-se para sempre daquela dor que lhe tolhia os movimentos. Era uma avalanche que, de repente, derramava sobre si o total desinteresse. Já não acreditava em nada.

 

            Pensou em pintar. Retraiu-se perante a ideia. Tinha medo de pintar. Já não vislumbrava em si qualquer talento... desacreditava-se.

 

            Sentia falta Dela... mas não sabia como nem de quem!

 

            Estava perdido, completamente perdido e só; abandonado e confuso nesse estranho universo do qual, no fundo, nada sabia.

           

            O tempo passava e ele estava cada vez mais velho. A vida esvaía-se.. e ele não tinha controle sobre isso. Não tinha controle nem poder sobre nada. Não era nada.

            “O que é que eu sou?”, interrogava-se Atlan. “Porque é que vivo e até quando vivo?... e depois?”

 

            Não tinha dinheiro. Sentia-se cada vez mais paralisado. Porque tentava evitar gastar o pouco que tinha, permanecia só, em casa.

            Pensou em mover iniciativas para ganhar dinheiro e acabar, pelo menos, com esse problema... mas para quê?... não era feliz. Nada lhe interessava. Nada tinha por que lutar.

            Esperança? O que era a esperança? Afigurava-se-lhe descabido ter alguma esperança... sentia-se o próprio erro de tudo... uma fraude.

Sentia que era capaz de tudo, mas que em tudo talvez fosse uma fraude, um esboço. Talvez não tivesse realmente talento em nada. Sentia que se enganava a si próprio e aos outros.

            Pintava, compunha musica, escrevia, fazia investigação científica, desenvolvia software, construía, projectava... e duvidava da qualidade de tudo o que fazia.

            Não, mas havia algo de que não duvidava. Acreditava numa coisa entre tudo o que fizera na vida: um quadro que pintara. Considerava a “Divina” uma obra-prima.

            Quereria isso dizer que ele, Atlan, tinha valor?

Justificar-se-ia a sua existência com a criação de um quadro que via como sendo uma obra de arte?

“Não sei, não sei, não sei”, pensou.

 

Por vezes, quando não estava em depressão e começava a fazer algo, como por exemplo pintar um quadro, acreditava no que estava a fazer. Acreditava que algo de genial iria brotar dali.

Mas outras vezes, quando estava a chegar ao fim da sua obra, ao olhá-la, parecia-lhe ver a composição um pouco garatujada de um miúdo. Ou então via algo que era interessante, mas apenas isso, e nada tinha de genial. ...Era apenas uma tela suja com cores.

 

Agora não havia inspiração, não havia nada.

 

Eram dois universos estanques.

Passava parte do tempo num, parte do tempo noutro e o resto entre os dois.

 

Quando estava neste universo, em que agora se encontrava, só havia uma vontade: a morte, o choro, o desespero, a aniquilação. Porque não vislumbrava qualquer bom sentido para tudo isto. Para ele, para os outros, para o universo... para tudo.

 

Se ele descobrisse uma passagem deste para o outro universo (no qual ele acreditava na grandeza, na felicidade, no sentido!)... transportar-se-ia imediatamente para lá.

“Mas essa passagem, se existir, deve estar dentro da minha vontade”, pensou Atlan, “e a minha vontade não existe para nada que me possa fazer sair da inércia do universo onde estou. Tolhe-me. Faz-me encolher, ficar anichado num canto e não querer saber de nada. Isolar-me de tudo e todos. Dormir. Não existir.”

Deveria ele força-la? Acordar a sua vontade e forçar-se a passar para esse outro universo, onde ele acreditava possuir recursos inesgotáveis de talento, onde ele sentia que conseguiria encontrar-se e encontrar o seu génio?

Forçar a sua vontade a conduzi-lo para “onde” ele acreditava em que havia um significado grandioso para a Existência e que ele o conseguiria descobrir... força-la para “lá”, onde ele confiava que descobriria os segredos do mundo e viajaria entre as estrelas e seria um cidadão do universo, envolvido por ele com amor e transformado num ente com possíveis divinos. Num ente que poderia ser livre de fluir pelo espaço e pelo tempo.

Força-la para “onde” ele ainda conseguia ter uma ténue esperança de a encontrar, a Ela e ao amor total?

 

“Mas se eu me sinto tão perdido, sem alento, sem sequer saber bem o que quero e o que sou, onde estou, etc...”, reflectia Atlan com desespero.

“Meu Deus, eu queria perseguir a depressão e acabar definitivamente com ela, para sempre. Mesmo que isso significasse que eu vivesse na ilusão para esse sempre. Na ilusão de acreditar.”

“Mas pelo menos viveria.”

“E não sofreria esta dor que me paralisa os movimentos, a imaginação, a alma.”

 

Pensou em escrever tudo aquilo. Pelo menos serviria para que alguém pudesse compreender o que sentia e como era a sua doença, pois não conseguia explicar por palavras quando lhe perguntavam o que sentia.

Mas este simples pensamento causou em si um arrepio de desconforto e sentiu-se tolher no seu sofá para que dali não saísse nem escrevesse nada.

Para quê escrever. Para quê fazer qualquer coisa.

Era como se um mecanismo de preguiça lhe dissesse:

– Vais levantar-te, vais esforçar-te... para nada. Deixa-te ficar na distracção de um programa televisivo.

 

Todo o seu corpo e a sua vontade se uniam para que nada fizesse.

 

Observou-se ao espelho.

Os seu olhos estavam baços, o seu rosto descaído. Abatido por um desânimo e um desleixo desinteressado...

Vagueou pela casa. Comeu uma bolacha. Nem tinha apetite... nem tinha nada.

Comer para quê? Não lhe apetecia nada...

 

Recordou com sensações de desconforto e dor os escolhos da sua vida decorrida. As suas perdas. As várias vigarices de que tinha sido alvo. As suas loucuras. As coisas que estragou em períodos conturbados. Dinheiro que “queimara” e que agora lhe fazia falta para poder viver melhor. Alguma namorada que deixara e da qual agora sentia falta. Mas, mesmo nesse tempo, nenhuma delas fora suficiente para o curar dessa sua doença, desse seu estranho desespero...

 

Finalmente,  a angústia foi grande e, movido por uma vaga esperança de se compreender a si próprio e de que escrever poderia contribuir para uma futura solução, levantou-se.

Encheu páginas de caracteres e continuou a sentir que não se expressara completamente; que não conseguira traduzir tudo o que sentia.

 

 

Por fim, abandonou a secretária e dirigiu-se para o seu quarto levando consigo um “talvez” em que pouco acreditava. Um “talvez que amanhã acordasse no outro universo em que acreditava no belo e no infinito”.

Mas não conseguia pensar “acredito que vou encontrá-la”... Já passara demasiado tempo, e o tempo aniquila as esperanças e el… ele já não sabia nada!...

...

 

 

Paixão

 

Atlan estava activo. Os seus pensamentos sucediam-se, rápidos:

“Penso em descobrir o sistema holista que permite o pensamento! Entrego-me ao estudo da neurologia, da psicologia, da física, da matemática, da inteligência artificial, da cibernética.”

“Anoto as minhas conclusões. Sinto estar a avançar. Acredito na possibilidade de o conseguir e na certeza do meu engrandecimento com esses conhecimentos.”

...

“(Estou cansado de escrever. Passa da meia noite Será que tem alguma utilidade, algum interesse, todo este trabalho e este tempo despendido a tentar exprimir o que sinto?)”

 

Levantou-se, vagueou pela casa pensando nisso, e decidiu escrever mais um pouco:

 

“Sinto que descubro que há, na Arte, algo por criar. O que está, no homem, para além do consciente. O que ultrapassa o real. E acredito-me criador dessa nova corrente artística.”

“Vislumbro um novo passo ontológico do Homem. A passagem a uma nova fase e a um novo grau de consciência. O desenvolvimento da MetaConsciência.”

“E empenho-me em encontrar na Arte a expressão do enaltecer dessa MetaConsciência, dessa meta-realidade

“Do Surrealismo e da arte Abstracta como expressão da psicologia das profundezas e do inconsciente – a Psicanálise, lanço-me à procura do Metarrealismo como expressão da psicologia das alturas e do MetaConsciente.

 

As ideias tornavam-se cada vez mais nítidas na mente de Atlan.

 

“Uma realidade holista, a alma do real que ganha a sua existência através da soma sinérgica dos componentes desse real. Ultrapassando o real e criando, assim, uma forma existencial plena e bela.”

“Esta ideia encanta-me. Acredito que descobrirei a sua expressão plástica...”

...

Etc., etc.

...

Desânimo

 

 

“Agora parece-me que os meus quadros não revelam nada de profundamente inovador que traduza o meta-real e a MetaConsciência.”

“Vejo-os apenas como esboços por onde passa uma ténue brisa do que quero e de como quero.”

“Mesmo a minha obra prima insurge-se-me bela mas impossível. Impossível porque a realidade me faz crer que não existe alguém assim, como represento no quadro.”

 

Levantou-se pensativo. Enquanto deambulava pela sala, Atlan imaginou como seria encontrar essa mulher-deusa que pintara, há dois anos atrás, numa noite febril.

 

“Já nem sei se conseguirei encontrá-la e, mesmo que a encontre, não sei se conseguirei substituir a minha solidão por ela. Esta solidão que me dói, também já me faz falta. Conseguiria viver com ela e possuir também a solidão quando dela necessito? A minha confusão é grande e sinto-me perdido...”

“Perdido num universo que, quando esta depressão me envolve, já não sei se é um universo nas mãos de Deus ou se é um universo à deriva, ao acaso.”

“Um universo ao acaso em que depois da morte nada resta, em que a existência individual não tem sentido.”

 

Aquela hipótese de um cosmos não inteligente, destituído de qualquer consciência perturbava-o. “E, no entanto, era uma possibilidade. E perante essa possibilidade só restaria uma salvação”, pensava Atlan, “transmutar-me! Seria a única forma de me preservar.”

 

“Vejo milhões de seres humanos como grupos de moléculas que se agregam e desagregam. Um universo como um brinquedo louco, sem inteligência nem consciência. Um mecanismo que bate as horas por acaso. Sem alma, vazio, caótico.”

“Um brinquedo nas mãos de uma criança acéfala que solta um riso louco. Uma criança que também não é, ela própria, mais do que outro brinquedo num turbilhão de existência.”

“Sinto-me impotente, incapaz de fazer a minha própria vida. Incapaz de encontrar a minha companheira, incapaz de parar a minha descida para a decadência, incapaz de viajar pelas estrelas, incapaz de ser o que a minha vontade clama, incapaz de ir até onde a minha vista alcança, incapaz de fluir livre pelo universo, incapaz de saber onde estou e o que sou, incapaz de parar a morte.”

“E até incapaz de ser feliz... talvez por ser incapaz de tudo o resto.”

...

“Agora, na depressão, olho para os meus progressos na investigação do mecanismo do pensamento através da Inteligência Artificial e parecem-me rabiscos de criança. E parece-me tola a minha ilusão de que poderia vir a descobri-lo.”

...

Atlan lembrou-se de Sofia, que nunca compreendera muito bem o que ele sentia, e escreveu:

 

“Compreendes agora o que quero dizer com a minha depressão?”

...

 “...E esta sensação de perda. Sentir sempre o tempo a esvair-se, como a minha vida a escoar-se, na areia de um ampulheta...”

 


 

 Da equação E=mc2 conclui-se que a massa equivalente à energia de 1 MeV é dada por 1 MeV / c2 = 1,78 x 10-27 g .

 

 Neste sistema , a massa de um electrão será me = 0,5 MeV /c2.

Seriam necessários 100.000.000.000.000.000.000.000 electrões para perfazer um grama!    (1024 electrões)

       O protão é duas mil vezes mais pesado (938,1 MeV/c2).

 

Como o número de partículas diferentes é limitado, temos de dar como provado que a massa deve ser considerada um número quântico e, portanto, só pode assumir a série discreta de valores encontrados na natureza.

       Mas porquê estes valores e não outros?

       Qual é a lei universal que regula esta escala de massas?

       Estas são as principais questões a que os cientistas, desde a descoberta da descontinuidade, procuram responder...

 

O fotão é o primeiro exemplo de uma partícula sem massa. Isto porque se desloca à velocidade da luz, limite absoluto da teoria da relatividade.

Como a massa de um corpo aumenta com a sua velocidade, e o seu volume se contrai, se acelerássemos um corpo até à velocidade da luz, a sua massa tornar-se-ia infinita e o seu volume igual a zero. O que é que isto significaria? Que esse corpo se transformaria em energia?... assim como a luz é energia?

Digamos que, se a massa do fotão não for exactamente nula, ela será insignificante, sendo inferior a 10-44 grama!

Como o fotão é destituído de massa, a sua energia está concentrada em uma vibração e pode assumir uma série contínua de valores. Assim, o fotão não é quantificado em si próprio, como a carga eléctrica, mas é quantificada a sua emissão por átomos. Isto é, a energia dos fotões saídos do emissor só pode tomar uma série descontínua de valores.

É indispensável distinguir entre números quânticos que sejam parâmetros existentes apenas em formas inteiras e indivisíveis e o quanto de campo ou de energia, susceptível de tomar qualquer valor, mas que é quântico por força da sua natureza corpuscular e pelo carácter quântico da sua emissão.

A Aventura Quântica, 6


 

 

Os Negros Anos Luz

 

 

Outrora tudo correra bem para Atlan.

Depois, subitamente, tudo mudou.

A sua confiança foi abatida por sucessivas vagas de insucessos.

A sua forma de pensar: lógica, clara e probabilística foi ainda mais vulnerável do que se possuísse uma mente simples e desordenada.

Acreditara sempre que as ocorrências aleatórias, casuais, seguiam a lei das probabilidades.

Aí estava a sua vulnerabilidade mental.

Sempre pensara que, ao atirar uma moeda cem vezes ao ar, ela cairia aproximadamente cinquenta vezes para cada face.

Assim, quando caiu cem vezes “cara”, sentiu-se perdido.

claro que isto não se passou com uma moeda.

Passou-se com a sua vida!

 

Recapitulando: a sua confiança anterior funcionara assim:

em cada acção que realizava, havia uma percentagem de sucesso seguramente maior do que os cinquenta por cento de falha/sucesso. Atribuía essa vantagem às suas capacidades e qualidades e a uma certa sorte.

E assim tinha vivido toda a sua vida.

E mais, quando se tratava de algo muito importante, e se empenhava a fundo, geralmente conseguia-o. Mesmo que fosse alguma coisa muito difícil de atingir.

Isto fortalecia a sua confiança na sua capacidade de realização.

E era normal. Tudo era ainda perfeitamente normal e dentro de um universo probabilístico.

Os acontecimentos apenas dependiam das circunstâncias, mais ou menos casuais, do universo onde decorria o acontecimento, e dele próprio.

Não havia grandes mistérios.

Nada contrariava o seu espírito científico.

  A sua confiança evoluía num universo casual e probabilístico onde o sucesso das suas acções era determinado pelo seu empenho e capacidade face ao equilíbrio de acontecimentos favoráveis e desfavoráveis.

Enfim, tudo era compreensível e aceitável.

Assim, ele conseguia viver.

 

 

O pior foi quando a “moeda” lhe caiu cem vezes “cara”.

Ainda por cima, “cara” significava “desfavorável” para ele.

 

Assim começou.

E a sua confiança foi derrubada por cem vagas de luz negra.

 

 

Primeiro começou com o seu trabalho.

Não conseguia obter estabilidade económica.

Tinha tantas ideias, tantos negócios, mas nenhum deles frutificava como devia.

Pela primeira vez encontrara algo que não conseguia vencer.

Mas enfim, como no resto da sua vida, a percentagem de sucesso era ainda elevada, continuou...

Porém, quando o insucesso atingiu a parte amorosa tudo escureceu.

Foram os negros anos luz.

 

Antes, nunca tinha tido dificuldade em encontrar companheira.

Claro que nunca encontrara “a ideal”, mas tinha tido ligações bastante satisfatórias.

Agora não tinha nada.

Vagueava num deserto.

Um deserto de emoções, de sensações, de ausência de coisas partilhadas e queridas.

O “ostracismo” era uma palavra omnipresente nos seus pensamentos.

Chegou até esse deserto flutuando de relação menos, e cada vez menos, satisfatória.

Antes tudo tinha sido diferente.

Quantas vezes as paixões vieram ter consigo. Um olhar, um sorriso, um convite. A maior parte das vezes, ele não precisara de tomar qualquer iniciativa. As oportunidades vinham ter consigo. E ele escolhia, dentre elas, a que mais gostava. Sempre tinha vivido rodeado por pessoas que facilmente gostavam dele e se apaixonavam.

Nunca pensou que à “batalha económica” se seguiria a “batalha do amor”.

 

 

Agora, sem amor, as vagas dos negros anos luz cada vez mais o sepultavam no limbo da indiferença e da tristeza omnipresente.

Ainda atirou muitas vezes a “moeda” ao ar, mas as frustrações sucediam-se.

Agora, já ninguém olhava para ele.

Ou, pelo menos, era o que ele sentia, pois a sua confiança transformara-se em anti-confiança e a sua fé em fé no insucesso.      

 

 


 

A energia de uma partícula provém, por um lado, da sua energia cinética, expressa pela equação ½ mv2 da mecânica clássica e, por outro, da energia equivalente à sua massa em repouso, E=mc2.

Para uma partícula muito rápida, torna-se necessário efectuar as correcções relativísticas para o aumento de massa e, portanto, distinguir entre massa em repouso, m0, e massa aparente em movimento, m.

Assim, por vezes é preferível recorrer a uma outra variável, a quantidade de movimento p, que é o produto da massa pela velocidade,  p = m v.

Quando em movimento lento, a energia total de um corpo vem dada por ½ mv2 + m0 c2 e a de um conjunto de partículas será o somatório (S) das energias totais de cada uma.

O princípio fundamental da conservação da energia domina toda a mecânica quântica:  “a energia total de um sistema que sofre uma reacção distribui-se integralmente pelos produtos finais dessa reacção”.  Isto é, aparentemente, a energia não pode ser criada.

Daqui se deduz o princípio da perda de massa da física nuclear: a massa de um núcleo formado por n nucleões (protões e neutrões) não é n  vezes maior que a massa do nucleão, mas sim algo menor; tal perda de massa representa a enorme energia necessária para manter a coesão dos nucleões no núcleo, parte da qual é libertada durante a fissão.

A quantidade de movimento p (= m v) ou ‘momento’, é também conservada durante uma reacção:

Em To, antes do choque da esfera A de massa m e velocidade v, com a esfera B imóvel, a energia total de A é E=1/2 mv2, e a quantidade de movimento é Pa.

Após a colisão, em T1, verifica-se que Pa+Pb(depois)=Pa(antes) e que  Ea+Eb(depois)=Ea(antes).

 

As energias são expressas em eV ou MeV, e os momentos em eV/c  ou   MeV/c.

 

A Aventura Quântica, 7


 

 

………………………………………………………..…………………….

              À medida que Íris ia tomando conhecimento dessas suas fases de “baixa energia”, ou de desalento, admirava-se, ao mesmo tempo, com a persistência de Atlan em não desistir de concretizar o seu grande sonho.

              Por vezes, após dois ou mais anos de profundo desespero, ele conseguia reiniciar uma nova “escalada” ou “abordagem” à transmutação e em cada uma delas parecia ascender a um ponto ainda mais alto do que os anteriores.

              Hoje mostrar-lhe-ia mais algumas páginas do seu “diário” correspondentes ao registo da sua terceira abordagem à transmutação.

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O Diário de Atlan – 4

A  3ª Abordagem:   (1 ano e meio depois)

de  Dezembro  a Março: duração: 3 - 4 meses

 

Após ter estado mergulhado numa apatia depressiva, criei um novo negócio na área informática que começou a correr bem.  Isto melhorou o meu estado de ânimo e comecei a libertar-me da depressão.

 

Contratei uma colaboradora para me auxiliar no meu trabalho. Tornou-se uma agradável companhia diária e eu comecei a sentir-me de novo num estado de elevada energia que canalizei para tentar entrar, novamente, em processo de transmutação.

 

Não vou referir todos os fenómenos paranormais, pois muitos deles são comuns às abordagens anteriores.  Um dos primeiros foi o do sol. Mais uma vez, o sol parecia brilhar, sempre que a minha disposição o solicitava – com uma facilidade surpreendente.

As alterações atmosféricas sempre tinham estado relacionadas apenas com o sol,.

Um fim de tarde, eu e Lisa, a minha colaboradora, estávamos na costa a olhar para o mar.  O céu estava limpo, sem nuvens. Por qualquer motivo, talvez como experiência, eu desejei que surgissem relâmpagos.  Comentei   com  ela  o  meu  desejo. Continuamos a olhar para o mar. Subitamente, junto à linha do horizonte, começamos a ver os primeiros relâmpagos. Em pouco tempo tinham surgido nuvens escuras vindas do horizonte e que, rapidamente se alastravam por todo o céu. Pouco depois, as trovoadas eram já muito fortes. Ficamos os dois um pouco assustados e resolvemos entrar no carro. Ao atravessarmos a cidade começou a chover fortemente.  Eu tinha um cliente para visitar em Felgueiras, a cerca de 60Km da cidade do Porto e, para me afastar da cidade e  do temporal que aparentemente causara, resolvemos dirigir-nos para lá de imediato.

 

Nessa noite dormi, pelo menos seis ou sete horas, o que já não fazia há algum tempo.  Acordei sentindo-me cheio de energia. Dirigi-me à janela; lá fora continuava a chover.  Desejei que fizesse sol, muito sol. Fiquei em frente à janela aberta fazendo aquilo que, parecia ser uma respiração em uníssono com o céu, como se estivesse a puxar o sol e a soprar para longe as nuvens escuras. Só ao fim de quinze minutos os raios de sol começaram a irromper timidamente por entre as nuvens.  Continuei e, ao fim de meia hora, o céu estava limpo, azul, sem nuvens, e o sol brilhava intensamente.

 

Devo referir que, nestas fases, por vezes, o meu estado de espírito era muito susceptível. Quando contrariado por algo que considerava absurdo, enfurecia-me facilmente. Após uma desavença com algumas pessoas, fiquei indignado e desejei que trovejasse, que chovesse, etc.

Choveu e trovejou intensa e continuamente, durante três dias consecutivos. Ao fim desse tempo apercebi-me pelas notícias da rádio e da televisão que o mau tempo ameaçava atingir características catastróficas: a barragem de Crestuma estava em risco de rebentar e havia vários animais e gado mortos pelas cheias no Ribatejo. A morte destes animais inocentes enterneceu-me e senti que eu poderia ser responsável pelo que estava a acontecer. Recordo-me que ouvi estas notícias quando cheguei, já tarde, ao hotel; deveriam ser umas cinco horas da manhã. Desejei, de uma forma natural, que todo esse temporal terminasse e que voltasse a fazer bom tempo; em seguida deitei-me e dormi. Quando acordei, quatro horas depois, estava um sol radioso e um céu azul e eu estava calmo e com uma sensação de paz. Liguei o rádio e ouvi as notícias. O tempo melhorara por todo o país, o nível do rio baixara e já não havia o perigo de a barragem rebentar. As notícias referiam que o estado do tempo começara a melhorar rapidamente a partir das 5 horas da manhã.

 

Nos restantes eventos que ocorreram, o meu estado psicológico desviou-se cada vez mais da normalidade. O choque e o atrito do mundo com a minha realidade interior era grande e eu não estava a conseguir controlar, com bom senso, a elevada energia que pulsava dentro de mim. Também a minha velocidade interior e exterior eram muito grandes e desfasadas com a movimentação lenta dos outros e da sociedade em que vivia inserido. Tudo isso travava-me e enervava-me fazendo-me progressivamente perder o controlo...


 

……………………………...…………………………………….

– O meu grande problema, Íris, são estes longos períodos de desalento que se sucedem à queda de um desses estado de elevada energia – desabafava Atlan – esses longos períodos são em tudo muito semelhantes a uma depressão psicológica. As causas são outras mas a sintomatologia é idêntica. Ao “olhar nu” de um psicólogo menos atento toda esta minha problemática não passaria de um vulgar “transtorno bipolar”, um desequilíbrio químico no meu metabolismo, algo que altera a produção dos neurotransmissores que actuam entre as sinapses cerebrais produzindo assim uma tendência para eu oscilar entre fases de euforia e confiança e fases de desânimo e depressão. Sim, suponho que possuo em mim a tendência para esse desequilíbrio, sim… o que agrava a minha situação. Mas também não me parece que possa encarar-se toda a minha problemática apenas por esse ângulo. Seria procurar encontrar uma explicação demasiado simplista. No entanto, essa tendência psíquica para o desequilíbrio é aniquilante quando me arrasta para os abismos do desânimo e da depressão. Aí passo a ser eu o principal adversário e atrofiador de mim mesmo, para além de todas e quaisquer adversidades inerentes ao meu percurso.

Realmente, pensava Íris, essa personalidade triste e apagada em que mergulhava parecia nada ter a ver com aquele Atlan brilhante e entusiasta, transbordante de energia e poder que conhecera em Montserrat, nas Filipinas, durante aquela feroz erupção vulcânica.

Parecia que a sua anterior capacidade para actuar na realidade moldando-a aos seus desejos se invertia; e que esta se transformava em algo que se lhe opunha e o contrariava, abafando-o numa demolidora asfixia...

………………………………………...………………………….


 

Asfixia

 

 

            O computador não arrancava.

            Desligou-o e voltou a ligá-lo.

Nada.

Agora o écran do monitor nem dava sinal de vida.

Insistiu mais duas vezes.

O mesmo resultado.

Ia insistir mais uma vez, mas pensou que, naquele momento, de nada iria adiantar.

Não era a primeira vez que uma coisa daquelas lhe acontecia. Na verdade, aquele tipo de ocorrências era frequente.

 – Bem, tentarei mais logo – disse com um suspiro.

Tinha de ir à vila e portanto enfiou-se no carro e arrancou.

Ligou o rádio do carro. Apetecia-lhe ouvir música, para espairecer...

O rádio começou a tocar e depois desligou.

“Oh, não!” pensou Atlan. “Terá avariado?”

Deu-lhe uma pancadinha e o aparelho soltou algumas notas musicais. A seguir calou-se de novo.

Encostou o carro à berma da estrada. Retirou o painel destacável e voltou a introduzi-lo.

“Talvez seja mau contacto”, pensou.

Nada.

“Bom, desisto”, e arrancou de novo.

Havia dias em que nada funcionava direito, em que tudo avariava.

“Isso não era o pior”, pensou Atlan.

O pior, para Atlan, era o que acontecia no plano afectivo e profissional: o mesmo tipo de bloqueios.

“Lamentamos informá-lo  que o seu livro não se insere nas nossas linhas editoriais...”, recordou-se.

O pior não era isso. O pior era quando se deixava dominar por uma sensação de asfixia e entrava em pânico – tinha reais dificuldades em respirar.

 

Estacionou o carro no parque do supermercado e saiu pensativo na mensagem que lera, essa manhã, no telemóvel:

“Afinal não vou poder estar contigo no teu aniversário.”

Enfim, era apenas mais uma desilusão, no meio de tantas outras.

Provavelmente, passaria o seu dia de anos sozinho. Como sempre.

 

Enquanto fazia as compras mecanicamente viu uma cara bonita. Olhou-a com simpatia. Ela atirou-lhe uma cara de susto, como se tivesse acabado de ver o personagem do “Alien”.

“Porque é que, ainda há poucos anos, tudo era tão diferente?!...” interrogava-se e voltava a interrogar-se Atlan.

 

Quando chegou a casa, entrou no seu quarto e ligou a aparelhagem musical. Sintonizou-a na sua emissora preferida.

Estava a tocar Sade Adu. O seu último trabalho, “Sade lovers rock”.

Atlan adorava aquela música.

“Nem tudo é mau, afinal”, pensou.

O aparelho fez um “pfff...” e a emissora calou-se.

“Ter-se-á dessintonizado?”, pensou. Desligou e voltou a ligar o aparelho.

Voltou  a premir o botão que sintonizava a XFM.

Nada.

 

...

 

Da mente de Atlan soltavam-se espirais confusas.

“Será a minha própria força que me faz estas coisas? Que me cria todos estes bloqueios? Ou será que é o mundo que me cospe anticorpos porque me toma por um corpo estranho?”

“Será que estou a utilizar o meu próprio poder contra mim?... e porquê?”

“Será que não estou a gerir bem os meus recursos?”

“Será que tenho uma força maior do que suponho , tão grande que consegue bloquear completamente a minha vida, e isolar-me numa esfera de aço onde mirro aprisionado?”

“O que é que se passa?”

 

...

 

Quando passou por casa de Carlos ele disse-lhe:

– Passa por aqui mais logo para irmos tomar um copo.

Atlan recordou o género de locais mundanos onde Carlos gostava de tomar um copo e começou a dizer:

– Carlos, não posso porque o mundo está fech...

Reflectiu melhor e não terminou a frase.

Como poderia explicar-lhe que o mundo estava fechado para ele? E que só iria sentir-se pior ao sair com ele e ver tantas caras lindas que lhe estavam vedadas?

Atlan sentia que quase tudo lhe estava vedado naquele mundo. Por isso optou por dizer simplesmente:

 – Carlos, hoje não posso. Hoje não posso sair contigo.

 

E rumou para casa com o olhar desfocado no infinito.


 

……………………………………………………………………….

Por vezes Atlan mergulhava na antítese do seu poder.

Por vezes Atlan mergulhava no anti-poder.

 

Fechava-se, como uma ostra, tão dentro de si...

…Que sentia todos os outros, todo o mundo, fechar-se também para ele, negando-lhe toda a participação, convívio, afecto, amizade e amor. Sentia que o mundo o ostracisava! 

Era a solidão máxima. Caminhava só, num mundo que o ignorava.

 

O que entretanto mais o surpreendia era que ninguém estava interessado na Vida! Na verdadeira Vida! Todos se contentavam com esta pseudo-morte que vivemos com fim anunciado.

Transmutação do Homem? Verdadeira Vida? ...linguagens que ninguém compreendia.

Neste mundo da morte, desejar a vida parecia um pecado, ou até uma heresia, demasiadamente impensável.

 

E o isolamento entre ele e todos os outros tornava-se insuportável.

Até que o suplício atingiu o paroxismo e Atlan, num gesto samsónico de revolta, arrancou do seu próprio ser, que era a única coisa que ainda possuía, a força suficiente para quebrar todo aquele estado angustiante.

 

Afinal o Transmutalismo era também isso: transmutar uma situação desoladora em algo belo. Iria fazê-lo, pelo menos para já, através das formas que lhe fossem mais acessíveis. E uma dessas formas seria a Arte.

 

Sim, prosseguiria a Saga da sua luta pela Transmutação.

E sim, voltaria a pintar, e a consolidar a expressão (pelo menos a artística) de uma nova forma de enfrentar a vida.

……………………………………………………………………….


 

Atlan e a Meta-Arte

 

No refúgio lusco-fusco do seu pálido atelier, Atlan decidiu recomeçar a pintar.

Vislumbrava finalmente uma luz ao fundo do túnel.

Enquanto olhava o sol poente, com uma perna encavalitada sobre o parapeito da janela, decidiu que contra tudo e todos iria continuar a sua pesquisa.

Até hoje ninguém compreendera a sua Arte. Nem mesmo os especialistas. Ou muito menos esses.

“Tal como a Relatividade...”, pensou, “...Einstein disse que as crianças eram as que melhor o compreendiam. Porque não estavam atafulhadas de ideias preconcebidas...”

Era duro e difícil caminhar, assim, num mundo. Contra a maré.

Mas, agora, ele acreditava em si próprio.

Acreditava na inovação do seu trabalho.  E isso era o mais importante!... e também porque a Arte era o seu modo de desenvolver a MetaConsciência. E a sua comunhão com a Linguagem Aleatória Existencial...

Libertara-se de vez das dúvidas impostas pelos comentários dos críticos de arte e pelas exposições quase sem vendas.

“Quando se acredita numa coisa é preciso ir até ao fim, mesmo que ninguém nos compreenda”, reflectiu.

Afinal, os comentários e críticas que lhe tinham feito algumas das “autoridades” do mundo da arte, não faziam sentido, e só demonstravam como não tinham alcançado os significados profundos da sua obra: nem os aspectos técnicos, plásticos, nem tão pouco os fundamentos teóricos.

Alguns até o tinham confundido com os surrealistas! E opinaram que o que ele estava a fazer “estava ultrapassado”, pertencia “ao passado”!...

Quando era precisamente o contrário...

A Meta-Arte nunca havia existido.

Pertencia ao Futuro.

Então Atlan ergueu um cálice de Porto e brindou:

“Ao futuro do Impossível Próximo…”

 

 

Fim do 1º Volume

 

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